Contos e crônicas que vão surgindo no tempo. Na balança da vida, para o quase insuportável peso das impossibilidades, ofereço a insustentável leveza das possibilidades (Fernando Antonio Prado Gimenez)
domingo, 14 de dezembro de 2025
Oi gatão! Vamu lá?
sábado, 6 de setembro de 2025
Crônicas Portuguesas 8 - Necesito un bar de carta corta y mesero autoritario
Ontem à noite, fomos assistir a uma apresentação de fado gratuita no Cais das Descobertas e Jardim da Constituição. Parte da programação Noites no Cais, organizada pela Câmara (Prefeitura) Municipal de Lagos. Vimos e ouvimos as fadistas lacobrigenses Marta Alves e Helena Candeias em uma apresentação belíssima de quase duas horas. A primeira vive em Lisboa atualmente, conforme contou ao público. A segunda, a conhecemos duas semanas atrás em apresentação no Café Vadio em uma de suas noites de fado. Vive em Lagos. Ambas maravilhosas.
Enlevado pela música e canto, em determinado momento me vi pensando sobre as escolhas que a vida me trouxe. No começo do ano, graças ao fato de minha companheira ter sido selecionada para uma residência artística em Lagos, decidi acompanhá-la. Articulei um projeto de cooperação com uma universidade portuguesa e vim. Foram 15 dias de férias e 30 de trabalho em uma investigação sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual português. Após cada dia de trabalho, escolhas sobre o que visitar e conhecer por aqui. E nos finais de semana também. É óbvio!
Uma fala surpreendente saindo dos lábios dessa personagem. Sim, às vezes, na vida precisamos de um bar de cardápio curto e um garçom que decida por nós. Porém, na maioria das vezes que os cardápios sejam ricos e os garçons bons ouvintes. No máximo nos expliquem algumas opções desconhecidas. Ou seja, que corramos os riscos de nossas escolhas. Chegando a nosso fado e desconhecendo os que não escolhemos. Por nossa própria conta e risco.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Crônicas Portuguesas 7 - Sorte ou azar do caralho?
Começo essa crônica lembrando de uma frase ouvida de um atendente em uma padaria e pastelaria de Lagos. Lembre-se, pastelaria é confeitaria aqui em Portugal. Havíamos deixado nossas roupas em uma lavanderia, ou lavandaria como dizem aqui, de autosserviço. O ciclo de lavagem duraria pouco mais de trinta minutos. Minha companheira e eu seguimos a sugestão de outra cliente da lavandaria:
_ Ali na frente tem uma pastelaria ótima.
Nossa intenção era tomar um café ou outra bebida gelada. O calor matinal estava já muito forte. Vimos no cardápio uns drinques gelados com frutas tropicais. Pareceu uma boa pedida. Ao escolhermos e pedirmos, o atendente pediu para confirmarmos os números das bebidas no cardápio, só para ter certeza do que pedíramos. Dois ou três minutos depois ele voltou:
_ A máquina quebrou! Azar do caralho!
Além de rir da expressão, só nos restou a opção de tomarmos um sumo de laranja. Espremido na hora. Gelado. Nosso conhecido suco de laranja.
Por vários dias, talvez mais de uma semana, levei comigo a intenção de escrever algo sobre a expressão usada pelo atendente. Mas, faltava a inspiração.
Hoje, depois de um dia de trabalho, tivemos a oportunidade de passar algumas horas na Meia Praia em Lagos. Para nossa sorte, o horário de verão europeu permite dia claro até por volta das nove horas. Assim, entre 16 e 19 horas, ainda é um período agradável à beira-mar.
As praias por aqui tem partes públicas e partes sob concessão. Nestas é possível alugar cadeiras de praia ou espreguiçadeiras e um guarda-sol, ou tenda, como aqui chamam. Estruturas fixas na areia da praia, com uma cobertura que lembra um chapéu chinês. Os nossos guarda- sóis aqui são chamados chapéus-de-sol. Pelo menos nessa parte de Portugal.
O aluguel por um dia inteiro, de uma tenda e duas espreguiçadeiras, custa 15 euros. Após as 15 horas, o preço cai para 10 euros. Por duas vezes, no entanto, chegamos à Meia Praia, após as quinze horas e tivemos a sorte de não aparecer ninguém para cobrar. Hoje foi a segunda vez. Sorte do caralho!
Pois é, nossa estadia em terras algarvianas está se aproximando de seu fim. Dia 10 embarcaremos de volta para o Brasil. Porém no dia 8, já retornaremos a Lisboa para os compromissos finais dessa viagem de estudos para mim e de residência criativa para minha companheira.
Pensando bem, foram poucas as vezes que a boa fortuna não nos favoreceu nessa viagem. Além de muita leitura, análises e reflexão, e alguma produção escrita, inclusive esta série de crônicas, levo comigo dessa viagem, uma admiração grande por esta bela região de Portugal onde ficamos quase 30 dias. Uma sorte do caralho!
Como foi a sorte de ver esse cachorro na janela de sua casa. Estávamos na cobertura da casa onde vivemos as três últimas semanas em Lagos. Minha companheira foi quem o viu pela primeira vez há três dias. Hoje lá estava ele de novo! É ou não é uma sorte do caralho poder levar este registro fotográfico do cachorro namoradeiro da rua Infante de Sagres em Lagos? Será uma memória inesquecível desse curto período em Lagos.
terça-feira, 26 de agosto de 2025
Crônicas portuguesas 6 - Um olhar sobre outro olhar
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 5 - A gaivota, a pipa e uma cicatriz
O vento continua. Desde ontem. Com ele, a sensação térmica cai. Não é o caso de pegar uma blusa. O frio é suportável. Começo a ler o livro adquirido ontem. Mujeres que compran flores. Logo no começo uma fala de Olivia, mexe comigo:
_ Siempre me gustaron las personas con cicatrices, como los árboles. De hecho, desconfío de las personas que pasados los cuarenta no tienen ninguna.
A fala da florista me lembrou de poesia que escrevi para minhas filhas. Tempos atrás. A busco em meu blog:
Das filhas e das dores
Resisto ao desejo: vê-las sem dores.
Ao contrário de Galeano, a Deus não pedi que as dores delas me fossem destinadas.
Mesmo que assim desejasse, não poderia fazê-lo.
Deus não há!
Na vida, já tiveram sua cota.
De dores. Eu também.
Sobrevivemos.
Outras virão. Sobreviveremos.
Neste tempo, entre a luz e a escuridão final, fiz e farei alguns dos curativos de suas feridas.
E elas, dos meus.
As outras dores?
Outros e outras trataram e tratarão.
Algumas, cada um cuidou por conta própria.
Todas parte da vida.
A vida de cada um. Que tem que ser vivida por si mesmo.
Nesse revisitar de minha própria escrita, cortei o verso final. Era desnecessário.
As cicatrizes surgem das dores. Sem dores, não seríamos confiáveis para Olívia. Minhas filhas se aproximam dos quarenta. Já têm suas cicatrizes. São confiáveis.
Ao pousar um pouco o livro, ouvi um barulho. Como se fosse um bater de folhas plásticas. Ou de papel. Ao mesmo tempo, ouvi o grasnar de uma gaivota. Ao olhar em direção às fontes do som, vejo a gaivota no topo do telhado ao lado. Ainda está lá enquanto escrevo. Um pouco mais distante, uma pipa voa alto e oscila com o vento forte. Dela vinha o canto. Que me pareceu o vibrar de folhas ao vento.
A gaivota e a pipa. Uma voa, apesar do vento. Tem vida própria. A outra voa com o vento. Depende do engenho humano. Me lembro de que nunca fui muito habilidoso no fazer de pipas na adolescência. Assim como não consegui a simetria com os pedaços de melão, não o conseguia no corte da pipa. As memórias, às vezes, são como cicatrizes. Marcas que se acumulam em você. Esta cicatriz é bem pequena. Não doeu muito. Há outras maiores. Mas quem não as tem?
Segundo Olivia, a florista, os que não são confiáveis. Ainda bem que tenho a minha cota. Pode confiar!
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 4 - Sardinhas à discrição
domingo, 10 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 3 - Sonho de imigrante
sábado, 2 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 2 - Descobertas e reencontros
Há cinco dias em Portugal, já tive momentos de descobertas e de reencontros. Outro dia, no meio da tarde, parti em busca de uma sorveteria nas proximidades de onde estamos. Pelo Googlemaps, me informei da existência da Gelados Monte Neve, cerca de um quilômetro de distância. Uma sorveteria pequena, com um leque não muito diversificado de opções.
Apostei no conhecido pistache e mesclei com o desconhecido mirtilo. Boa mistura. Sentei-me junto a uma das duas mesinhas externas. Logo depois, o dono, que me servira o sorvete, veio checar se a mesa e a cadeira estavam limpas. Manutenção nas ruas próximas estavam empoeirando tudo. Mas a minha cadeira, assim como a mesinha, me pareceram limpas.Aproveitei para lhe perguntar se o gelado era de fabricação própria. Confirmou e complementou:
_ É minha mulher que faz. Ainda.
Ela estava dentro a conversar com outra senhora. Pelos cabelos grisalhos de ambos, e pelo "ainda" de sua resposta, deduzi que devem estar nesse comércio há muitos anos. Lembrei-me de histórias que minha mãe contava após o casamento com meu pai. Começo dos anos 50. Ela passou a fazer os sorvetes do Bar e Sorveteria do Gimenez, na esquina da rua Paranaguá com a Goiás. Em minha mente, juntaram-se as duas pequenas empresas. Uma fusão de descoberta e reencontro. A descoberta da Gelados Monte Neve me fez reencontrar memórias que me contaram sobe o bar e sorveteria de meus pais.
Findo o sorvete, decido flanar por esta parte de Almada. Placas indicavam o centro histórico. Caminhei em sua direção. Depois de quinze minutos, vejo um prédio, com um letreiro ao meio da fachada frontal - Incrível Almadense. E, pouco acima das três portas amplas, outro letreiro menor: Cine Incrivel. Meu flanar pelo centro de Almada me trouxe à frente daquela que foi a primeira sala de cinema da cidade. Aprendi sobre isso em um documento da Câmara Municipal de Almada que encontrei na Internet.
Ah, as coincidências da vida! Em 1999, após participar de um congresso em Nápoles, sozinho, fui até Foggia passear por uma região da Itália que não conhecia. Sem destino, na manhã do segundo dia, peguei um ônibus para a região litorânea. Desci em Manfredônia, e me dirigi à praia. Um pouco antes de chegar a ela, vi as ruínas do Cinema Impero, que foi o primeiro cinema de Manfredonia. Tirei uma fotografia que até hoje ilustra as edições da Revista Livre de Cinema. Coloco nesta crônica as fotografias dos dois cinemas que o acaso colocou nos meus caminhos separados por pouco mais de 25 anos. Mais uma vez, uma descoberta no presente me leva a um reencontro com o passado.
Por fim, no meio da tarde, após o almoço em casa, decidi vir ao Quiosquices, um quiosque no centro do Largo 5 de Outubro em Almada. A dois minutos de onde estamos hospedados. Vim com a ideia de pedir uma groselha com gelo e água com gás. A atendente ficou surpresa. Não servem assim a groselha desse lado do Rio Tejo. Ela deu duas opções: a groselha com pedras de gelo ou o tango. Perguntei o que era. Ela brincou é uma dança! Mas é também um imperial com groselha. Lembra do imperial da primeira crônica portuguesa? Pois é, ele de novo. Uma descoberta recente.
Pedi o tango, sentei-me à sombra em uma das mesas do Quiosquices, e me pus a escrever esta crônica. Logo mais vou dançar outro tango!
terça-feira, 29 de julho de 2025
Crônicas portuguesas 1 - Falamos a mesma língua
Após a chegada no aeroporto de Lisboa, uma espera de duas horas para os trâmites de imigração. O oficial me indagou algo que não entendi bem. Apesar de falarmos o mesmo idioma. Pensei que me perguntara porque estávamos vindo para Portugal e por quanto tempo. Na verdade, queria saber porque estávamos naquela fila e não em outra.
Instalados, dormimos um par de horas. Talvez mais. Ao despertarmos, já na hora do almoço, decidimos caminhar um pouco até o restaurante Jardim, no Largo 5 de Outubro. Uma das sugestões de nossa anfitriã. Muito próximo de onde estamos. Na leitura do cardápio, algumas dúvidas. Falamos a mesma língua, mas às vezes as coisas se complicam. Um prato me chamou a atenção: bacalhau com grãos. Seriam grãos de bico? Por segurança, perguntei à garçonete, por acaso brasileira, sobre os grãos. Estava certo. Eram grãos de bico.
Depois do almoço, voltamos para o apartamento. Mais algumas horas de descanso. A viagem fora cansativa. Adormecemos de novo. Ao final da tarde, por sugestão de nossa amiga, caminhamos até Cacilhas, de cujo cais parte o transporte para o Cais do Sodré, em Lisboa. Uma boa caminhada de 30 minutos.
Ao final do passeio, chegou o momento de atender a outro desejo: um chope gelado. Escolhemos um lugar de frente para o cais. Enquanto esperava algum atendente, percebi que ninguém se aproximava. Olhei ao redor. Em uma das paredes do local, um aviso: pré-pagamento, sem serviço de esplanada. Não foi difícil deduzir: tinha que ir ao balcão interior, pedir o que queria, pagar e trazer à minha mesa. Afinal, falamos a mesma língua!
Porém, não foi tão simples assim. Ao pedir duas cervejas, a atendente me perguntou: qual tamanho? Ao perceber-me em dúvida, adicionou: caneca ou tulipa. O problema foi que não queria nenhuma das duas medidas. Ela me ofereceu a terceira alternativa. Falou tão rápido que não consegui entender o nome. Me soou a algo terminado em iel. Pedi que me mostrasse por favor, me desculpando ao mesmo tempo.
domingo, 13 de julho de 2025
Crônica do descaso
domingo, 15 de junho de 2025
Gente estranha em Goiás
No dia seguinte, Daniel e Dayane, que atuam junto com Cândido no Laboratório de Pesquisa em Empreendedorismo e Inovação da Universidade Federal de Goiás, me levaram para conhecer a cidade de Goiás, primeira capital do estado.
O convite veio em função de minha conhecida cinefilia, pois no dia anterior havia se iniciado mais uma edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da cidade de Goiás. Porém, embora tenhamos conseguido assistir duas sessões do festival nesse dia, minha visita à antiga Villa Boa de Goyaz me traria surpresas agradáveis além do mundo do cinema.
E, ainda teve mais. Na loja ao lado, vejo uma exposição de livros, mas não era uma livraria. Na verdade, já havia passado pela livraria Leodegaria, que homenageia a primeira mulher a publicar um livro de poesias no estado de Goiás em 1906, Leodegaria de Jesus.
Eram vários exemplares de três livros. Um deles, pela capa e título, atraiu minha atenção: Histórias do mercado e outras lembranças de Tõe do Galo. Folheei o livro, perguntei o preço e comprei.
Indaguei sobre o autor, e a mulher que me atendia disse que ele tinha estado por ali, mas havia saído. E completou: mas logo volta. Nesse momento, chegou o filho do Tõe do Galo. Se prontificou a ir buscar o pai. Eu disse que não precisava. Iria almoçar e depois passaria por ali de novo.
Depois do almoço, voltei à loja e lá estava o autor do livro. Nesse momento me dei conta de que ele é o proprietário da loja, junto com a mulher e o filho. Me dirigi a ele e disse que queria um autógrafo. Ele me respondeu:
_ Ah, eu não dou conta.
_ Só o seu nome, eu insisti.
_ Faço o ce de Camargo. Serve?
Só então me dei conta de que o Tõe não escreve. Ele é um contador de histórias. E, bem no seu jeito, me perguntou:
_ Tem tempo de ver uma fotografia?
_ Claro que sim.
Ele foi para dentro e voltou com uma fotografia da Praça do Coreto da cidade de Goiás. E me mostrando a calçada lateral da praça, me contou uma das suas histórias:
_ Antes dessa calçada, este lado da praça era dividido em duas partes por uma cerca de arame farpado. As mulheres caminhavam de um lado. E, os homens, do outro lado na direção oposta. Ninguém podia se tocar.
_ E depois? O que acontecia? Lhe perguntei.
_ Depois a gente ia pro Beco do Grudi. Aí a gente se pegava!
Tõe do Galo e eu, Goiás, 13/07/2025
A essa altura, você deve estar se perguntando sobre o título dessa crônica - Gente estranha em Goiás - não é? Em uma das histórias narradas no livro do Tõe do Galo, ele conta sobre os tempos de criança em que ia pegar frutas no jardim da casa de Cora Coralina. E, no meio dessa história, ele conta que naquela época não se chamava os visitantes de turista, mas de "gente estranha na cidade".
Feliz fui eu de passar algumas horas como gente estranha na cidade de Goiás e conhecer Tõe do Galo, bolo de arroz e a livraria Leodegaria. Se puder, vá também ser gente estranha por lá. Tenho certeza de que a hospitalidade vila-boense vai te surpreender. E não se esqueça de comprar o livro do Tõe do Galo. Além de saber como os vila-boenses se referiam a turistas antigamente em Goiás, você vai conhecer muita gente que não está nos livros de história. Gente como a Dona Arinda que pegava água no rio em latas e vendia. E, nesse comércio, levava os recados de uma cliente para outra, o leve-e-traz ou fuxico, sem maldade, como nos lembra o Tõe do Galo.
sábado, 7 de junho de 2025
Conto (exercício em o)
No ponto, moro. Pro bono. No polo, ocorro. Solo. Ouço um coro. No horto, o som do motor roto. Colho o coco. Sondo o odor do olmo. Tom. Cor.
Cozo. Olor do bolo no ponto. Corto. Como. Com modos.
Soro no copo roxo. Longo golo.
Rodo o jogo do ogro. O boto no poço oco. No solo, oposto, obro. Ovo.
Socorro, monstro no morro. Com corno. Corro. Coro. Oro. Troço. Posso?
Som longo. Sol posto. No porto, o fogo morto. Pronto!
sábado, 12 de abril de 2025
Doces memórias temperadas ao sal de bacalhau
O Supermercado Gimenez tinha um estoque diversificado. Característica inerente deste tipo de empresa. O chamado autosserviço precisa ter uma diversidade ampla de produtos de forma a estimular a compra de impulso. Se você gosta de fazer compras em supermercados, como eu, provavelmente já foi vítima desta tática do varejo. Vai em busca de um ou dois produtos, porém chega no caixa com a cestinha cheia. E pensando: deveria ter pegado um carrinho!
Assim, era o Gimenez. Cheio de produtos que atraíam a atenção da freguesia. Entre eles, sempre havia uma caixa de bacalhau da Noruega próxima ao açougue. A caixa ficava no topo de um balcão, inclinada em torno de 45 graus, com as peças de bacalhau à mostra. O bacalhau era vendido o ano todo. Mas na época da Semana Santa e Páscoa, a demanda era maior.
Minha memória, porém, não é somente isso. Tinha algo que eu adorava fazer. Muitas vezes, ao passar próximo ao bacalhau, tirava uma lasquinha bem fina de uma das peças. Colocava na boca e deixava o sal se derreter. Depois mastigava o pequeno pedaço do peixe. Lembrar disso agora, até me deu água na boca. Algumas vezes, não conseguia tirar uma lasca com a mão. Nesses momentos, pedia ao açougueiro: me empresta uma faca.
Muitas vezes devo ter falado:
_ Altino, me ajuda aqui. Corta um pedacinho do bacalhau.
Altino foi um dos açougueiros que trabalhou no Supermercado Gimenez. Era gente boa! Eu me admirava com a habilidade que ele tinha em desossar um traseiro ou dianteiro de boi. E me espantava quando ele comia um pequeno bife de boi cru. Mal imaginava eu que, décadas depois, eu me tornaria um consumidor de carne de onça em Curitiba. Além dos bifinhos que comia cru, Altino tinha um benefício adicional ao salário de açougueiro. Aos sábados, ao final das atividades da semana, levava pra casa um quilo de algum tipo de carne. Era uma forma de seu Gimenez tentar manter o profissional no emprego. Era um tipo de profissão não muito fácil de recrutar.
Quanto às peças de bacalhau, vezenquando, um ou outro freguês pedia:
_ Me corta um pedaço do bacalhau. Mas do lado que não foi rasgado.
Se eu estava por perto, Altino me olhava e piscava com um olhar maroto. Muitas vezes, o pedaço do lado rasgado ia parar na cozinha de nossa casa. Atravessava a rua Paranaguá, pois morávamos praticamente em frente ao Gimenez, desde que a Casa Gimenez virou supermercado. Mas, esta é outra história. Ou memória!
Pois é, ao ver duas caixas vazias de bacalhau em frente ao Mercado Municipal de Curitiba, me vieram estas doces lembranças dos tempos do Gimenez. Temperadas pelo sal das lascas de bacalhau que me deliciaram nos anos 70 e começo dos anos 80 do século passado.
terça-feira, 4 de março de 2025
Sons do Botânico
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
Cenas de Praia
Um navio cargueiro aponta na saída do Morro da Gruta. Lentamente passa entre as boias vermelha e verde que assinalam o trajeto a seguir. Vai ficando cada vez menor conforme se afasta em direção ao alto mar. De repente, some de vista. Para alguns, evidência mais que suficiente da curvatura da terra. Para outros, em um passe de mágica, some o navio! Independente do grupo que integre, continue comigo.
Meu olhar é atraído agora por um cão que sai das águas do mar. Grande e como um labrador, porém me pareceu de raça indefinida. Após chacoalhar o corpo expulsando parte da umidade dos pelos, rola pela areia já distante do mar. Caminha um pouco pela praia. Mais à frente retorna para dentro do mar. Fica apenas com a cabeça de fora e se balança com o vai-e-vem das ondas que quebram. Parece não ter dono. Depois de um tempo, desaparece na restinga à beira-mar. Para mim, uma evidência da liberdade canina. O que será que busca após seu banho de mar? Água? Comida? Ou uma sombra para uma soneca? Não tenho a resposta.
De repente, vejo um homem caminhando paralelamente ao mar. Se parece com alguém já visto outro dia. Talvez por isso, o sigo com o olhar. Tento localizá-lo na memória recente. Sem sucesso. Entra no mar. Meu olhar agora é atraído pela mulher que cruza diagonalmente a areia. Se dirige ao ponto em que o homem entrara no mar. Em uma de suas mãos, carrega uma camiseta e um boné. Ela também veste boné e camiseta. Se abaixa e pega os chinelos do homem que entrara no mar. Pela aparência, deve ser sua esposa. No seu ato, enxergo, a evidência de uma relação de servir. Subserviência? Um acordo conveniente a ambos? Um mero ato de gentileza com o parceiro? Assim como no caso do cão, não tenho a resposta. Seja o que for, nesse momento é apenas uma das cenas de praia.
Me levanto e busco uma caipirinha, De limão e cachaça. A brisa marítima contínua forte.
E o sol escapou das nuvens. Me ajeito sob a sombra do guarda-sol. E escrevo.








