domingo, 14 de dezembro de 2025

Oi gatão! Vamu lá?

No meio da manhã de domingo decido flanar por Curitiba. Saio de casa nas proximidades do Jardim Botânico em direção ao Mercado Municipal. Embora possa parecer com destino certo, o espírito do flanador (seria esta a palavra em português para flaneur?) me acompanha. Me sentindo purista hoje! Sem francesismo!
Nas proximidades, depois de alguns minutos de caminhada, embarco no segundo tubo. Pra quem não é de Curitiba, esclareço: tubo é um ponto de ônibus que aspira ser estação de metrô. Também chamado estação tubo. Espero pelo primeiro ônibus. São apenas duas opções. Um em direção à Praça Ruy Barbosa. O outro pode me levar mais longe. Para o Campo Comprido. Também passa pela Praça Ruy Barbosa.
É o segundo que aparece. Embarco pensando em ir até a estação Praça Osório. De lá caminhar pela praça e depois pela rua XV. Mas o espírito flanador está dominante hoje! Desço na terceira estação e sigo pela rua Barão de Rio Branco, depois de cruzar a Praça Eufrásio Correia. Rumo ao centro.
A Barão de Rio Branco é continuada pela Rua Riachuelo. Antes de chegar ao fim da primeira, passo em frente ao Museu da Imagem e do Som. Me surge a ideia de visitá-lo. Mais uma vez. Há algumas semanas li sobre mudanças nas exposições ali disponíveis. Mas assim como veio a ideia se foi. Rápida. Flanar é a intenção.
Logo em seguida, alguns pingos de chuva no caminho. Sob as marquises, me protejo deles. Ainda esparsos, junto com o mormaço da manhã, prenunciam uma tempestade. Pelo menos é a previsão dos meteorologistas de plantão.
Sigo em direção ao Cine Passeio que está na Riachuelo. Logo após o Paço da Liberdade, quase na esquina da Barão de Rio Branco, Riachuelo, Tobias de Macedo e Alfredo Bufren (Sim! É uma esquina de quatro ruas! A Tobias de Macedo vira Alfredo Bufren). Coisas de Curitiba! Ouço o convite:
_ Oi gatão! Vamu lá?
Ah! Essa esquina sempre com movimento das trabalhadoras do sexo! Impossível passar por ela sem notá-las. Sorrio e recuso o convite. Mas uma dúvida me surge: seria o convite da moça uma forma dos deuses me protegerem da tempestade? Buscar um lugar seguro!
Sem resposta clara, espero o sinal de pedestre abrir e sigo em frente. Três quadras à frente, vejo uma moça lavando a calçada em frente ao Mahá. Restaurante que Fernanda, a filha caçula, me apresentou. Do qual me tornei freguês. Lhe pergunto se servirão almoço hoje. A partir do meio-dia é a resposta. 
Ainda faltam 30 minutos. Decido flanar em direção ao Largo da Ordem. Lá, na Casa Romário Martins termino de visitar a exposição sobre Poty Lazaroto. Tinha visto parte dela há algumas semanas. Também em uma manhã de domingo. 
Assistindo um documentário sobre o artista, surge mais um gato na manhã desse domingo. É o Gato Preto de Edgar Allan Poe que Poty ilustrou nos anos 80. Parte das ilustrações são exibidas no documentário enquanto um narrador lê trechos do livro de Poe. Uma lindeza! 
Ao contrário da moça na esquina de quatro ruas no centro de Curitiba. E afinal a tempestade não veio. Me parece que o convite não tinha nada a ver com proteção das divindades. Ou, quem sabe, eram outros os desejos divinos para esse flanador sexagenário? Quem pode responder? Eu não!
Ao voltar ao Mahá, surge essa crônica. Junto com a boa comida e a caipirinha de cataia, a escrita me acalma a alma. Para terminar, o delicioso sorvete de paçoca. Longa vida ao Mahá.


sábado, 6 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 8 - Necesito un bar de carta corta y mesero autoritario

Pode parecer estranho começar uma crônica portuguesa com um título em espanhol. Com os acasos da vida até as coisas estranhas se explicam.  Acredite em mim. Me acompanha que, ao final da crônica, você me entenderá. Mas seja paciente. Não vá direto ao final! O que vem antes do fim também merece a sua leitura. Mas a escolha é sua.

Ontem à noite, fomos assistir a uma apresentação de fado gratuita no Cais das Descobertas e Jardim da Constituição. Parte da programação Noites no Cais, organizada pela Câmara (Prefeitura) Municipal de Lagos. Vimos e ouvimos as fadistas lacobrigenses Marta Alves e Helena Candeias em uma apresentação belíssima de quase duas horas. A primeira vive em Lisboa atualmente, conforme contou ao público. A segunda, a conhecemos duas semanas atrás em apresentação no Café Vadio em uma de suas noites de fado. Vive em Lagos. Ambas maravilhosas.

Enlevado pela música e canto, em determinado momento me vi pensando sobre as escolhas que a vida me trouxe. No começo do ano, graças ao fato de minha companheira ter sido selecionada para uma residência artística em Lagos, decidi acompanhá-la. Articulei um projeto de cooperação com uma universidade portuguesa e vim. Foram 15 dias de férias e 30 de trabalho em uma investigação sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual português. Após cada dia de trabalho, escolhas sobre o que visitar e conhecer por aqui. E nos finais de semana também. É óbvio!

Pois é, em minha vida o destino me trouxe muitos momentos de decisão. Ontem, ouvindo fado, que também significa destino, me ocorreu a ideia de que só se alcançam os fados a partir de nossas escolhas. Fiz muitas em minhas vidas. Algumas em cardápios longos, com muitas opções. Outras em cardápios curtos, quase únicas. Como se um garçom autoritário me dissese:
_ É o que tem pra hoje!
Me sinto feliz em pensar que, na maioria das vezes, foram escolhas próprias. Eram aqueles caminhos pelos quais queria trilhar. Com sucessos. Com fracassos. Porém minhas. E, também, refleti sobre as escolhas que não fiz. Por onde não fui. O que será que desconheci?
E hoje, em um sábado à beira-mar, retomei a leitura do livro - Mujeres que compran flores - que já inspirou uma crônica portuguesa. As personagens principais são cinco mulheres que convivem em um bairro de Madrid. Em suas conversas, volta e meia surgem as escolhas. Feitas. A fazer. Surgem as dúvidas também.
Na passagem de hoje, três delas foram a um bar no final da tarde - Cassandra, Victoria e Marina. A primeira, executiva de sucesso, chamada pelas outras de superwoman, sempre decidida, se dirigiu às outras:
_ Necesito un bar de carta corta y camarero autoritario.
Uma fala surpreendente saindo dos lábios dessa personagem. Sim, às vezes, na vida precisamos de um bar de cardápio curto e um garçom que decida por nós. Porém, na maioria das vezes que os cardápios sejam ricos e os garçons bons ouvintes. No máximo nos expliquem algumas opções desconhecidas.  Ou seja, que corramos os riscos de nossas escolhas. Chegando a nosso fado e desconhecendo os que não escolhemos. Por nossa própria conta e risco.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 7 - Sorte ou azar do caralho?

 

Começo essa crônica lembrando de uma frase ouvida de um atendente em uma padaria e pastelaria de Lagos. Lembre-se, pastelaria é confeitaria aqui em Portugal. Havíamos deixado nossas roupas em uma lavanderia, ou lavandaria como dizem aqui, de autosserviço. O ciclo de lavagem duraria pouco mais de trinta minutos. Minha companheira e eu seguimos a sugestão de outra cliente da lavandaria:
_ Ali na frente tem uma pastelaria ótima.
Nossa intenção era tomar um café ou outra bebida gelada. O calor matinal estava já muito forte. Vimos no cardápio uns drinques gelados com frutas tropicais. Pareceu uma boa pedida. Ao escolhermos e pedirmos, o atendente pediu para confirmarmos os números das bebidas no cardápio, só para ter certeza do que pedíramos. Dois ou três minutos depois ele voltou:
_ A máquina quebrou! Azar do caralho!
Além de rir da expressão, só nos restou a opção de tomarmos um sumo de laranja. Espremido na hora. Gelado. Nosso conhecido suco de laranja.
Por vários dias, talvez mais de uma semana, levei comigo a intenção de escrever algo sobre a expressão usada pelo atendente. Mas, faltava a inspiração.
Hoje, depois de um dia de trabalho, tivemos a oportunidade de passar algumas horas na Meia Praia em Lagos. Para nossa sorte, o horário de verão europeu permite dia claro até por volta das nove horas. Assim, entre 16 e 19 horas, ainda é um período agradável à beira-mar.
As praias por aqui tem partes públicas e partes sob  concessão. Nestas é possível alugar cadeiras de praia ou espreguiçadeiras e um guarda-sol, ou tenda, como aqui chamam. Estruturas fixas na areia da praia, com uma cobertura  que lembra um chapéu chinês. Os nossos guarda- sóis aqui são chamados chapéus-de-sol. Pelo menos nessa parte de Portugal.
O aluguel por um dia inteiro, de uma tenda e duas espreguiçadeiras, custa 15 euros. Após as 15 horas, o preço cai para 10 euros. Por duas vezes, no entanto, chegamos à Meia Praia, após as quinze horas e tivemos a sorte de não aparecer ninguém para cobrar. Hoje foi a segunda vez. Sorte do caralho!
Pois é, nossa estadia em terras algarvianas está se aproximando de seu fim. Dia 10 embarcaremos de volta para o Brasil. Porém no dia 8, já retornaremos a Lisboa para os compromissos finais dessa viagem de estudos para mim e de residência criativa para minha companheira.
Pensando bem, foram poucas as vezes que a boa fortuna não nos favoreceu nessa viagem. Além de muita leitura, análises e  reflexão, e alguma produção escrita, inclusive esta série de crônicas, levo comigo dessa viagem, uma admiração grande por esta bela região de Portugal onde ficamos quase 30 dias. Uma sorte do caralho!
Como foi a sorte de ver esse cachorro na janela de sua casa. Estávamos na cobertura da casa onde vivemos as três últimas semanas em Lagos. Minha companheira foi quem o viu pela primeira vez há três dias. Hoje lá estava ele de novo! É ou não é uma sorte do caralho poder levar este registro fotográfico do cachorro namoradeiro da rua Infante de Sagres em Lagos? Será uma memória inesquecível desse curto período em Lagos.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Crônicas portuguesas 6 - Um olhar sobre outro olhar

A fotografia que acompanha esta crônica foi tirada quando andava pela rua Infante de Sagres, no centro de Lagos. Caminhar por ela tem sido uma atividade diária neste período em que vivo nesta bela cidade algarviana. É um dos caminhos que levam ao centro histórico. Repleto de lojas, cafés e restaurantes que atraem aos turistas.
Minhas andanças por Lagos ocorrem ao final da tarde. Depois de fazer minhas leituras, análises e reflexões sobre o projeto de pesquisa que aqui realizo, o horário de verão permite que passeie ainda com a luz solar iluminando o trajeto. Nessa época, anoitece por volta das nove horas. É muito agradável.
Nesse dia, minha companheira e eu tínhamos feito um lanche no Café Gil Eanes que fica na praça de mesmo nome.
Nessa praça, que homenageia um dos navegadores portugueses do século XV, há uma estátua que representa o rei Dom Sebastião. Esta tem um formato que lembra os bonecos da antiga marca Playmobil, com suas partes móveis e articulações bem marcadas. É uma estátua, para dizer o minimo, curiosa.
Com o desaparecimento de Dom Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, no norte da África em 1578, a coroa portuguesa passou para os Filipes da Espanha, visto que ele não tinha descendentes. Sua morte também levou ao surgimento do mito do Sebastianismo, ou seja, a esperança de seu retorno, em uma manhã de nevoeiro, para salvar Portugal de seus problemas (https://ensina.rtp.pt/artigo/d-sebastiao-1554-1578).
Independente da possível volta de Dom Sebastião, que, tenho certeza estranharia muito a estátua que o homenageia, tenho sido cliente constante do Café Gil Eanes. Frequentemente há músicos tocando e cantando na sua frente, ao lado da estátua de Dom Sebastião. O atendimento é cortês e rápido. E os preços não são exagerados. Porém, algo me chamou a atenção no cardápio no primeiro dia: a presença de bitterballen e outros petiscos holandeses que conheci em Utrecht entre 2020 e 2021. Ao perguntar para a garçonete como em Lagos havia um bar servindo produtos holandeses, com um sorriso ela explicou que a mãe veio dos Países Baixos para o Algarve há muitos anos. O Café Gil Eanes está em funcionamento desde 1954. Assim, dia sim, dia não, tomo uma imperial acompanhada de bitterballen. É claro, em outras ocasiões as delícias portuguesas estão sempre presentes no cardápio semanal.
Porém, mais uma vez a escrita me leva por caminhos não intencionados. Na verdade, queria aborda como meu olhar foi atraído por outro olhar, ainda que distante. Um dos meus passatempos é buscar janelas que viram objeto de minhas fotografias. Em minha casa, uma das paredes da sala é quase repleta com elas. Aqui em Lagos, não poderia ser diferente. Constantemente, enquanto caminho, olho para as casas e prédios em busca de novos exemplares para minha coleção. Já tenho algumas feitas aqui em Portugal.
Assim, nesse dia, ao buscar por janelas, encontrei esta em que mais do que a beleza material, enxerguei, talvez, a poesia. Um olhar distante acompanhava o vai-e-vem dos turistas. No que será que a mulher pensava ao nos ver passando pela Infante de Sagres? Não tenho a resposta. Para mim foi suficiente registrar o meu olhar de um outro olhar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 5 - A gaivota, a pipa e uma cicatriz

 


Mais um final de tarde e começo de noite no terraço de nossa nova morada. Parto meio melão em oito pedaços. Tento cortes simétricos, mas não sou bem sucedido. Os pedaços de melão têm a mesma forma, mas tamanhos diferentes. Resultado de leves deslizares da faca sobre a casca. Não importa. O sabor é o que importa. Delicioso.
O vento continua. Desde ontem. Com ele, a sensação térmica cai. Não é o caso de pegar uma blusa. O frio é suportável. Começo a ler o livro adquirido ontem. Mujeres que compran flores. Logo no começo uma fala de Olivia, mexe comigo:
_ Siempre me gustaron las personas con cicatrices, como los árboles. De hecho, desconfío de las personas que pasados los cuarenta no tienen ninguna.
A fala da florista me lembrou de poesia que escrevi para minhas filhas. Tempos atrás. A busco em meu blog:


Das filhas e das dores

Resisto ao desejo: vê-las sem dores.
Ao contrário de Galeano, a Deus não pedi que as dores delas me fossem destinadas.
Mesmo que assim desejasse, não poderia fazê-lo.
Deus não há!
Na vida, já tiveram sua cota.
De dores. Eu também.
Sobrevivemos.
Outras virão. Sobreviveremos.
Neste tempo, entre a luz e a escuridão final, fiz e farei alguns dos curativos de suas feridas.
E elas, dos meus.
As outras dores?
Outros e outras trataram e tratarão.
Algumas, cada um cuidou por conta própria.
Todas parte da vida.
A vida de cada um. Que tem que ser vivida por si mesmo.
Nesse revisitar de minha própria escrita, cortei o verso final. Era desnecessário.
As cicatrizes surgem das dores. Sem dores, não seríamos confiáveis para Olívia. Minhas filhas se aproximam dos quarenta. Já têm suas cicatrizes. São confiáveis.
Ao pousar um pouco o livro, ouvi um barulho. Como se fosse um bater de folhas plásticas. Ou de papel. Ao mesmo tempo, ouvi o grasnar de uma gaivota. Ao olhar em direção às fontes do som, vejo a gaivota no topo do telhado ao lado. Ainda está lá enquanto escrevo. Um pouco mais distante, uma pipa voa alto e oscila com o vento forte. Dela vinha o canto. Que me pareceu o vibrar de folhas ao vento.
A gaivota e a pipa. Uma voa, apesar do vento. Tem vida própria. A outra voa com o vento. Depende do engenho humano. Me lembro de que nunca fui muito habilidoso no fazer de pipas na adolescência. Assim como não consegui a simetria com os pedaços de melão, não o conseguia no corte da pipa. As memórias, às vezes, são como cicatrizes. Marcas que se acumulam em você. Esta cicatriz é bem pequena. Não doeu muito. Há outras maiores. Mas quem não as tem?
Segundo Olivia, a florista, os que não são confiáveis. Ainda bem que tenho a minha cota. Pode confiar!

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 4 - Sardinhas à discrição

Quase 19 horas, e o dia ainda está bem claro. No horário de verão em Lagos, o sol tem se posto após as nove horas da noite. Depois de um dia de trabalho, caminhamos um pouco pelo centro histórico de Lagos. Em uma livraria, ao me ver folheando livros usados, a proprietária me informa sobre a feira de livros usados que se iniciou ontem no antigo Armazém Regimental.
Ampliamos um pouco nossa caminhada em direção ao local. Lá chegando, na multiplicidade de oferta, entre clássicos da literatura, contistas de Lagos e livros em espanhol, me decido por um de Vanessa Montfort, nascida em Barcelona em 1975.
O título - Mujeres que Compran Flores - e a contemporaneidade da escritora foram decisivas na minha escolha. Quem sabe outro dia volte para adquirir a coletânea de contos lacobrigenses, isto é, de Lagos.
Aliás, na primeira casa em que nos hospedamos havia uma pequena biblioteca em que encontrei um livro de outra autora, Antonia Fraser. Escritora britânica, de geração muito mais anterior a Vanessa Montfort. Nascida em 1932, é autora de biografias e romances policiais. O livro que encontrei foi A Splash of Red, em que Jemima Shore, jornalista de televisão que já foi personagem de alguns romances de Antonia Fraser elucida o assassinato de sua amiga Chloé, também escritora. Há tempos tenho privilegiado a leitura de livros escrito por mulheres.
Nossa segunda moradia em Lagos não tem nenhum livro à disposição dos hóspedes. Porém oferece uma sacada em seu topo de onde se pode ver, à distância, a Meia Praia de Lagos. Há pouco, antes de iniciar essa crônica, pude ver a ponta de um veleiro passando por trás dos demais prédios que ficam no caminho de minha visão da Marina de Lagos. Acompanhei a lenta passagem do veleiro oculto no horizonte, navegando pela ribeira em direção oposta ao mar. A visão me fez lembrar do almoço de hoje em que comemos sardinhas assadas ao carvão. Abandonei o livro de Vanessa que trouxera à sacada para começar a leitura. Me pus a escrever essa crônica quase em formato de registro de um diário.
Pouco depois do meio-dia nos dirigimos ao Escondidinho, restaurante próximo ao Laboratório de Actividades Criativas (LAC) de Lagos, onde minha companheira faz uma residência artística. É nesse espaço que trabalho em meu projeto de pesquisa sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual em Portugal. Me permitiram usar a mesma cela da residência criativa sem nenhum custo. Digo cela, pois o LAC é sediado em uma antiga cadeia. As celas foram transformadas em estúdios para os artistas que recebem.
Foi a segunda vez que fomos a este restaurante. Indicação de um dos funcionários do LAC. Da primeira vez, não comemos sardinhas pois nos pareceu caro. No entanto, ao pagar a conta, indaguei sobre a quantidade de sardinha que era servida. A resposta foi: sardinhas à discrição. Pela minha cara de dúvida, a sobrinha da proprietária, que estava ao caixa, esclareceu: comes o quanto quiseres ou puderes. 
Assim, hoje voltamos ao Escondidinho para comer sardinha à discrição. Chegamos um pouco cedo e fomos avisado que devíamos esperar. A proprietária parecia um pouco nervosa, talvez ríspida. Às vezes, o modo de falar dos locais me soa agressivo. Esperamos. Sentamos. Fizemos o pedido. Comemos as sardinhas à nossa discrição.
Contudo, apesar de ter comido bem, não poderia deixar de pedir uma sobremesa.
Logo que entramos, observei que um rapaz entrou no Escondidinho com uma embalagem redonda. Dirigiu-se ao balcão de doces ao lado de nossa mesa e abriu o pacote. Nele havia uma torta que me atraiu o olhar e despertou o desejo de doce.
Aproveitei que a proprietária se aproximou de nossa mesa e perguntei do que era a torta. Torta Algarviana foi a resposta. Com amêndoas foi o complemento da resposta. Ambas no mesmo estilo seco de falar do começo do almoço. Pedi um pedaço para conhecer. Seria muito difícil que aquela torta tão bonita e com amêndoas não fosse boa!
Mas, por trás de qualquer alma, em algum momento, a ternura se revela. Quando fui pagar a conta, uma pergunta suave da senhora: estava bom o doce?
Respondi afirmativamente e aproveitei para perguntar o nome da proprietária. Nos despedimos. E cá estou a terminar essa crônica com um pensamento: será a dona do Escondidinho também uma mulher que compra flores?

domingo, 10 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 3 - Sonho de imigrante

Logo nos primeiros dias de nossa estadia em Portugal, ainda em Almada, saí flanando pela ruas da vizinhança, Cova da Piedade.
Em minhas andanças, geralmente, muitas coisas chamam a minha atenção. Dessa vez, houve uma casa com portas e janelas muito bem pintadas cuja beleza me atraiu. Depois,  uma palavra que reconheci e, ao mesmo tempo estranhei. Foi o caso de "talho" que vi em uma fachada de casa de comércio. O estranhamento inicial foi substituído pelo reconhecimento seguido de uma interjeição: Ah! É o que no Brasil chamamos açougue.
Costumam chamar a minha atenção também, os anúncios nas placas em frente às lojas. Nesse dia, em uma padaria, li o anúncio: o melhor pastel de nata de Portugal. Para alguém que adora doces como eu, o anúncio foi um convite irresistível! Apesar de meus exames recentes de glicose sugerirem moderação, cedi à tentação. Entrei e pedi um café e um pastel de natas. Este era um pouco maior do que os que já havia comido aqui em Portugal. Mistura ideal de uma casca crocante e um creme de natas de lambuzar os dedos e os beiços. Não posso confirmar que merece o título de melhor de Portugal. Ainda tenho muitos a experimentar nesse país! Porém este estava delicioso.
E foi nesse flanar que em um muro, um cartazete manuscrito recebeu o meu olhar.
Nele estava escrito:
"Rapaz sério carinhoso trabalhador com vida estável pretende conhecer rapariga séria com boa apresentação idade entre 21 a 40 a. Para simples amizade ou futuro compromisso."
O seu teor esperançoso mexeu comigo. Um misto de surpresa e ternura, ao ver anúncio tão simples. Terá sido o rapaz bem sucedido?
Nestes tempos em que a legislação sobre imigração em Portugal está em debate, criando sérias restrições à entrada de estrangeiros por aqui, encontrei um apelo quase ingênuo de um rapaz, que supus imigrante. Nele, vi a esperança de uma vida melhor em outras terras de alguém que por alguma razão desconhecida, porém imaginável, não pode ser feliz em sua pátria.
Há dois dias, a imprensa local anunciou que o decreto do parlamento português sobre imigração teve pontos considerados inconstitucionais e foi vetado pelo presidente. No entanto, há a intenção do governo atual a voltar à carga.
Nesse interím, as imigrações continuam. E mais jovens esperançosos podem vir a esta terra hospitaleira em busca de uma simples amizade ou futuro compromisso. Longa vida à esperança, que é sempre a última que .morre.

sábado, 2 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 2 - Descobertas e reencontros

 Há cinco dias em Portugal, já tive momentos de descobertas e de reencontros. Outro dia, no meio da tarde, parti em busca de uma sorveteria nas proximidades de onde estamos. Pelo Googlemaps, me informei da existência da Gelados Monte Neve, cerca de um quilômetro de distância. Uma sorveteria pequena, com um leque não muito diversificado de opções.

Apostei no conhecido pistache e mesclei com o desconhecido mirtilo. Boa mistura. Sentei-me junto a uma das duas mesinhas externas. Logo depois, o dono, que me servira o sorvete, veio checar se a mesa e a cadeira estavam limpas. Manutenção nas ruas próximas estavam empoeirando tudo. Mas a minha cadeira, assim como a mesinha, me pareceram limpas.
Aproveitei para lhe perguntar se o gelado era de fabricação própria. Confirmou e complementou:
_ É minha mulher que faz. Ainda.
Ela estava dentro a conversar com outra senhora. Pelos cabelos grisalhos de ambos, e pelo "ainda" de sua resposta, deduzi que devem estar nesse comércio há muitos anos. Lembrei-me de histórias que minha mãe contava após o casamento com meu pai. Começo dos anos 50. Ela passou a fazer os sorvetes do Bar e Sorveteria do Gimenez, na esquina da rua Paranaguá com a Goiás. Em minha mente, juntaram-se as duas pequenas empresas. Uma fusão de descoberta e reencontro. A descoberta da Gelados Monte Neve me fez reencontrar memórias que me contaram sobe o bar e sorveteria de meus pais.
Findo o sorvete, decido flanar por esta parte de Almada. Placas indicavam o centro histórico. Caminhei em sua direção. Depois de quinze minutos, vejo um prédio, com um letreiro ao meio da fachada frontal - Incrível Almadense. E, pouco acima das três portas amplas, outro letreiro menor: Cine Incrivel. Meu flanar pelo centro de Almada me trouxe à frente daquela que foi a primeira sala de cinema da cidade. Aprendi sobre isso em um documento da Câmara Municipal de Almada que encontrei na Internet.
Ah, as coincidências da vida! Em 1999, após participar de um congresso em Nápoles, sozinho, fui até Foggia passear por uma região da Itália que não conhecia. Sem destino, na manhã do segundo dia, peguei um ônibus para a região litorânea. Desci em Manfredônia, e me dirigi à praia. Um pouco antes de chegar a ela, vi as ruínas do Cinema Impero, que foi o primeiro cinema de Manfredonia. Tirei uma fotografia que até hoje ilustra as edições da Revista Livre de Cinema. Coloco nesta crônica as fotografias dos dois cinemas que o acaso colocou nos meus caminhos separados por pouco mais de 25 anos. Mais uma vez, uma descoberta no presente me leva a um reencontro com o passado.
E, para fechar essa crônica, dois reencontros gastronômicos que surgiram de descobertas. Há dois dias, jantamos em um pequeno restaurante em Cacilhas. Depois de comermos um espeto de tamboril com camarão, resolvi pedir uma sobremesa. No cardápio, entre as opções, vi um doce de nome desconhecido para mim: farófias.  Busquei, mais uma vez, na Internet. Descobri que é a mesma coisa que na minha infância eu adorava. Sobremesa que chamávamos espumas flutuantes. E, no dia seguinte, em Lisboa, na Pastéis de Belém, vi no cardápio uma bebida com o nome groselha. Perguntei ao garçom se era o xarope de groselha. Ele confirmou informando que era servido com gelo e água, com ou sem gás. Nunca havia tomado groselha misturada a água com gás. Foi o que pedi. Muito bom! Descobertas e reencontros na minha viagem por Portugal.
Por fim, no meio da tarde, após o almoço em casa, decidi vir ao Quiosquices, um quiosque no centro do Largo 5 de Outubro em Almada. A dois minutos de onde estamos hospedados. Vim com a ideia de pedir uma groselha com gelo e água com gás. A atendente ficou surpresa. Não servem assim a groselha desse lado do Rio Tejo. Ela deu duas opções: a groselha com pedras de gelo ou o tango. Perguntei o que era. Ela brincou é uma dança! Mas é também um imperial com groselha. Lembra do imperial da primeira crônica portuguesa? Pois é, ele de novo. Uma descoberta recente.
Pedi o tango, sentei-me à sombra em uma das mesas do Quiosquices, e me pus a escrever esta crônica. Logo mais vou dançar outro tango!

terça-feira, 29 de julho de 2025

Crônicas portuguesas 1 - Falamos a mesma língua

Desde ontem estamos em Portugal. Nossa primeira parada é em Almada por onze dias. Depois de dez anos, retorno às terras lusitanas. Dessa vez para uma estada mais longa. Serão 45 dias entre Almada, Lisboa e Lagos, no Algarve.
Após a chegada no aeroporto de Lisboa, uma espera de duas horas para os trâmites de imigração. O oficial me indagou algo que não entendi bem. Apesar de falarmos o mesmo idioma. Pensei que me perguntara porque estávamos vindo para Portugal e por quanto tempo. Na verdade, queria saber porque estávamos naquela fila e não em outra.
A resposta foi simples: porque seu colega mandou. Satisfeito com a resposta, e informado por mim de que ficaríamos 45 dias, apenas pediu para ver a passagem de volta. Ao mostrar-lhe no aplicativo da companhia aérea não nos perguntou mais nada. Com os passaportes carimbados, fomos em busca de nossa bagagem, pegamos um táxi e 25 minutos depois estávamos no apartamento que uma amiga nos emprestou, localizado na Cova da Piedade, em Almada.
Instalados, dormimos um par de horas. Talvez mais. Ao despertarmos, já na hora do almoço, decidimos caminhar um pouco até o restaurante Jardim, no Largo 5 de Outubro. Uma das sugestões de nossa anfitriã. Muito próximo de onde estamos. Na leitura do cardápio, algumas dúvidas. Falamos a mesma língua, mas às vezes as coisas se complicam. Um prato me chamou a atenção: bacalhau com grãos. Seriam grãos de bico? Por segurança, perguntei à garçonete, por acaso brasileira, sobre os grãos. Estava certo. Eram grãos de bico.
Depois do almoço, voltamos para o apartamento. Mais algumas horas de descanso. A viagem fora cansativa. Adormecemos de novo. Ao final da tarde, por sugestão de nossa amiga, caminhamos até Cacilhas, de cujo cais parte o transporte para o Cais do Sodré, em Lisboa. Uma boa caminhada de 30 minutos.
Lá chegando, passeamos por uma rua muito simpática, com diversos restaurantes e lojas. Uma parada para atender a um dos meus vícios: sorvete. Bem em frente à primeira loja de canabis da cidade. Para outro tipo de vício! De outros, não meu. Sem nenhum preconceito. Cada um com os seus, e a vida continua!
Ao final do passeio, chegou o momento de atender a outro desejo: um chope gelado. Escolhemos um lugar de frente para o cais. Enquanto esperava algum atendente, percebi que ninguém se aproximava. Olhei ao redor. Em uma das paredes do local, um aviso: pré-pagamento, sem serviço de esplanada. Não foi difícil deduzir: tinha que ir ao balcão interior, pedir o que queria, pagar e trazer à minha mesa. Afinal, falamos a mesma língua!
Porém, não foi tão simples assim. Ao pedir duas cervejas, a atendente me perguntou: qual tamanho? Ao perceber-me em dúvida, adicionou: caneca ou tulipa. O problema foi que não queria nenhuma das duas medidas. Ela me ofereceu a terceira alternativa. Falou tão rápido que não consegui entender o nome. Me soou a algo terminado em iel. Pedi que me mostrasse por favor, me desculpando ao mesmo tempo.
Era o tamanho que queria. Que havia visto sobre algumas mesas. Intermediário entre tulipa e caneca. Antes de irmos embora, resolvi tomar mais um. Minha companheira foi até o balcão. Levou o copo para mostrar o tamanho desejado. E descobriu o nome da medida: imperial. Agora me diga você: tão simples, por que não entendi?
A resposta óbvia está no sotaque e na velocidade em que a palavra foi dita. Consegui captar a primeira letra e o final, de forma equivocada. Mas, a história quase acaba aí.
Consultando a Internet, descobri que no Norte de Portugal, não devo pedir um imperial. A medida por lá é chamada de fino. Bom saber! Nunca se sabe quando tentarei saciar a sede com uma cerveja gelada no Norte de Portugal. Por enquanto, nossos planos incluem ir apenas até o Algarve nessa temporada. É provável que naquelas terras um imperial seja a palavra certa. De qualquer forma, na dúvida, serve uma tulipa ou uma caneca. O que importa é a temperatura adequada e a boa companhia.


domingo, 13 de julho de 2025

Crônica do descaso

Ao som de Bethania e Chico, me transporto aos 18 anos. No calçadão, um engraxate menino. Ao me ver sentado, se aproxima. Vai graxa aí? Um sorriso no rosto. Não resisto à oferta. Férias de meio de ano. No primeiro ano da engenharia, dias depois voltaria a São José dos Campos.
Salta para 2025. Cinquenta anos se passaram. Aos 68 anos, me preparo para outra viagem. E, de repente, o sorriso do pequeno engraxate vem me assombrar. Ainda! Naquele longínquo 1975, o descaso da sociedade marcava presença no trabalho infantil escancarado na praça londrinense.
Em ano incerto, já em Curitiba, entre 2003 e 2017, em um banco de praça, um cadáver. Sentado. Maltrapilho. Passei por ele em uma manhã de inverno. A caminho do cinema. Era um sábado. Ao passar, policiais se aproximaram do homem sentado. Um lhe tocou. O corpo caiu. Eles e eu, nos demos conta: estava morto. Segui meu caminho.
Hoje, domingo de inverno, no grupo de haijins, a sugestão de kigo: dia gélido. Surgiu o haicai. Espectro de minhas andanças pelo mundo.
Em um dia gélido
o mendigo não desperta -
Descaso na praça.

domingo, 15 de junho de 2025

Gente estranha em Goiás

Vezenquando a vida me traz boas surpresas. Dias atrás estive em Goiânia mais uma vez. A convite de meu amigo Cândido participei em um painel sobre empreendedorismo na gestão pública, parte da programação de um encontro científico da área de Administração Pública no Brasil.

No dia seguinte, Daniel e Dayane, que atuam junto com Cândido no Laboratório de Pesquisa em Empreendedorismo e Inovação da Universidade Federal de Goiás, me levaram para conhecer a cidade de Goiás, primeira capital do estado.

O convite veio em função de minha conhecida cinefilia, pois no dia anterior havia se iniciado mais uma edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da cidade de Goiás. Porém, embora tenhamos conseguido assistir duas sessões do festival nesse dia, minha visita à antiga Villa Boa de Goyaz me traria surpresas agradáveis além do mundo do cinema.

Não poderia visitar a cidade de Cora Coralina sem passar pela casa em que viveu a poeta. Depois de um breve passeio pelas imediações da casa, fomos à Praça do Coreto e visitamos o Palácio Conde dos Arcos, que foi sede de governo e moradia dos governadores do estado até a fundação de Goiânia. Em seguida, fomos à primeira sessão do festival, indo, após ela, para o mercado municipal.
Ali começariam os momentos mágicos de minha visita à cidade. Logo na primeira loja descubro uma guloseima famosa da cidade: o bolo de arroz da Dona Inês. Eu perguntei à mulher que me atendia, se era salgado. Me informou que era doce e perguntou: quer experimentar. Diante da minha resposta positiva, me estendeu uma travessa para pegar o meu. Em seguida, me perguntou se eu aceitava um cafézinho. Aceitei novamente. Na hora de pagar, a surpresa. Ela não quis me cobrar nada, apesar da minha insistência. Cobrou apenas os sucos de Daniel e Dayane. Para mim, ficou a surpresa da hospitalidade da Marilena Braz Alves Soares, que hoje descobri ser filha da Dona Inês que dá nome à iguaria vila-boense.
E, ainda teve mais. Na loja ao lado, vejo uma exposição de livros, mas não era uma livraria. Na verdade, já havia passado pela livraria Leodegaria, que homenageia a primeira mulher a publicar um livro de poesias no estado de Goiás em 1906, Leodegaria de Jesus.
Eram vários exemplares de três livros. Um deles, pela capa e título, atraiu minha atenção: Histórias do mercado e outras lembranças de Tõe do Galo. Folheei o livro, perguntei o preço e comprei.
Indaguei sobre o autor, e a mulher que me atendia disse que ele tinha estado por ali, mas havia saído. E completou: mas logo volta. Nesse momento, chegou o filho do Tõe do Galo. Se prontificou a ir buscar o pai. Eu disse que não precisava. Iria almoçar e depois passaria por ali de novo.
Depois do almoço, voltei à loja e lá estava o autor do livro. Nesse momento me dei conta de que ele é o proprietário da loja, junto com a mulher e o filho. Me dirigi a ele e disse que queria um autógrafo. Ele me respondeu:
_ Ah, eu não dou conta.
_ Só o seu nome, eu insisti.
_ Faço o ce de Camargo. Serve?
Só então me dei conta de que o Tõe não escreve. Ele é um contador de histórias. E, bem no seu jeito, me perguntou:
_ Tem tempo de ver uma fotografia?
_ Claro que sim.
Ele foi para dentro e voltou com uma fotografia da Praça do Coreto da cidade de Goiás. E me mostrando a calçada lateral da praça, me contou uma das suas histórias:
_ Antes dessa calçada, este lado da praça era dividido em duas partes por uma cerca de arame farpado. As mulheres caminhavam de um lado. E, os homens, do outro lado na direção oposta. Ninguém podia se tocar.
_ E depois? O que acontecia? Lhe perguntei.
_ Depois a gente ia pro Beco do Grudi. Aí a gente se pegava!
Tõe do Galo e eu, Goiás, 13/07/2025
Pois é, além do ce de Camargo que Tõe do Galo me honrou com seu autógrafo em meu livro, me narrou esta deliciosa história de seus tempos de juventude na cidade de Goiás.
A essa altura, você deve estar se perguntando sobre o título dessa crônica - Gente estranha em Goiás - não é? Em uma das histórias narradas no livro do Tõe do Galo, ele conta sobre os tempos de criança em que ia pegar frutas no jardim da casa de Cora Coralina. E, no meio dessa história, ele conta que naquela época não se chamava os visitantes de turista, mas de "gente estranha na cidade".
Feliz fui eu de passar algumas horas como gente estranha na cidade de Goiás e conhecer Tõe do Galo, bolo de arroz e a livraria Leodegaria. Se puder, vá também ser gente estranha por lá. Tenho certeza de que a hospitalidade vila-boense vai te surpreender. E não se esqueça de comprar o livro do Tõe do Galo. Além de saber como os vila-boenses se referiam a turistas antigamente em Goiás, você vai conhecer muita gente que não está nos livros de história. Gente como a Dona Arinda que pegava água no rio em latas e vendia. E, nesse comércio, levava os recados de uma cliente para outra, o leve-e-traz ou fuxico, sem maldade, como nos lembra o Tõe do Galo.

sábado, 7 de junho de 2025

Conto (exercício em o)

Foto do probo moço coxo. Rosto oblongo. No colo gordo, com nojo, solto, porco formoso.
Sonho com vó. Folgo. No zoo, o vovô. Voo do pombo. Osso do lobo. Lombo do potro. Monos broncos.
No ponto, moro. Pro bono. No polo, ocorro. Solo. Ouço um coro. No horto, o som do motor roto. Colho o coco. Sondo o odor do olmo. Tom. Cor.
Cozo. Olor do bolo no ponto. Corto. Como. Com modos.
Soro no copo roxo. Longo golo. 
Rodo o jogo do ogro. O boto no poço oco. No solo, oposto, obro. Ovo.
Socorro, monstro no morro. Com corno.  Corro. Coro. Oro. Troço. Posso?
Som longo. Sol posto. No porto, o fogo morto. Pronto!

sábado, 12 de abril de 2025

Doces memórias temperadas ao sal de bacalhau

Depois da sessão de fisioterapia, caminho em direção ao Mercado Municipal. Manhã nublada e fresca, depois da chuva da madrugada. Próximo à entrada, enxergo duas caixas de madeira clara vazias. Imediatamente as reconheço: caixas de transporte de bacalhau seco. À minha memória, surgem imagens dos tempos do Gimenez. Doces memórias. Apesar do sal do bacalhau!
O Supermercado Gimenez tinha um estoque diversificado. Característica inerente deste tipo de empresa. O chamado autosserviço precisa ter uma diversidade ampla de produtos de forma a estimular a compra de impulso. Se você gosta de fazer compras em supermercados, como eu, provavelmente já foi vítima desta tática do varejo. Vai em busca de um ou dois produtos, porém chega no caixa com a cestinha cheia. E pensando: deveria ter pegado um carrinho!
Assim, era o Gimenez. Cheio de produtos que atraíam a atenção da freguesia. Entre eles, sempre havia uma caixa de bacalhau da Noruega próxima ao açougue. A caixa ficava no topo de um balcão, inclinada em torno de 45 graus, com as peças de bacalhau à mostra. O bacalhau era vendido o ano todo. Mas na época da Semana Santa e Páscoa, a demanda era maior.
Minha memória, porém, não é somente isso. Tinha algo que eu adorava fazer. Muitas vezes, ao passar próximo ao bacalhau, tirava uma lasquinha bem fina de uma das peças. Colocava na boca e deixava o sal se derreter. Depois mastigava o pequeno pedaço do peixe. Lembrar disso agora, até me deu água na boca. Algumas vezes, não conseguia tirar uma lasca com a mão. Nesses momentos, pedia ao açougueiro: me empresta uma faca.
Muitas vezes devo ter falado:
_ Altino, me ajuda aqui. Corta um pedacinho do bacalhau.
Altino foi um dos açougueiros que trabalhou no Supermercado Gimenez. Era gente boa! Eu me admirava com a habilidade que ele tinha em desossar um traseiro ou dianteiro de boi. E me espantava quando ele comia um pequeno bife de boi cru. Mal imaginava eu que, décadas depois, eu me tornaria um consumidor de carne de onça em Curitiba. Além dos bifinhos que comia cru, Altino tinha um benefício adicional ao salário de açougueiro. Aos sábados, ao final das atividades da semana, levava pra casa um quilo de algum tipo de carne. Era uma forma de seu Gimenez tentar manter o profissional no emprego. Era um tipo de profissão não muito fácil de recrutar.
Quanto às peças de bacalhau, vezenquando, um ou outro freguês pedia:
_ Me corta um pedaço do bacalhau. Mas do lado que não foi rasgado.
Se eu estava por perto, Altino me olhava e piscava com um olhar maroto. Muitas vezes, o pedaço do lado rasgado ia parar na cozinha de nossa casa. Atravessava a rua Paranaguá, pois morávamos praticamente em frente ao Gimenez, desde que a Casa Gimenez virou supermercado. Mas, esta é outra história. Ou memória!
Pois é, ao ver duas caixas vazias de bacalhau em frente ao Mercado Municipal de Curitiba, me vieram estas doces lembranças dos tempos do Gimenez. Temperadas pelo sal das lascas de bacalhau que me deliciaram nos anos 70 e começo dos anos 80 do século passado.

terça-feira, 4 de março de 2025

Sons do Botânico

Não é a primeira vez que escrevo sobre sons em algum ambiente. Hoje, fui para mais uma caminhada. Moro nas proximidades do Jardim Botânico, talvez 200 ou 300 metros da entrada principal. Às 18:10, comecei a descida em direção a esta entrada. O relógio na esquina do Botânico marca a hora e meu começo de caminhada mais intenso. Até chegar a ele, tenho que atravessar a rua onde moro e a avenida. Os sinaleiros tornam este trecho mais lento.
Na entrada do Jardim Botânico, um casal à minha frente conversava. Não prestei atenção nas palavras. Porém, a voz do homem me soou conhecida. Ao me aproximar deles, reconheci um dos funcionários da secretaria do Setor da UFPR em que trabalho. Lhe falei que estava reconhecendo a voz. E nos cumprimentamos. 
Passeibpor eles, que foram em outra direção. Comecei a minha primeira volta. Logo mais à frente, um rapaz com fone de ouvido passou por mim. Caminhávamos em sentidos opostos. "Em meio ácido é o magnésio mais". Ouvi ele dizer. Provavelmente falava ao celular. Estava só. Fiquei curioso. Para quem falava? Algum colega de trabalho? Algum estudante? Alguém com acidez no estômago. Impossível saber!
Logo mais à frente, ouvi passos mais apressados atrás de mim. Logo, fui ultrapassado por uma moça que corria. A visão me fez lembrar de Dalva, professora de educação física e amiga dos tempos que trabalhei na UEM. Uma vez comentei com ela que não gostava de correr. Prefiro as caminhadas. Ela me disse: "Um dia seu corpo vai pedir. E você vai começar a correr". Ela estava certa. Mas isso foi há mais de vinte anos. Será que meu corpo vai pedir agora que já cheguei aos 67? Vai saber!
Mais a frente, ainda na primeira volta passei por mais um casal. Ouvi ela dizer: Carajo! Tienes que hablar com ella". Graças aos meus estudos de espanhol ouvi perfeitamente. Me lembrei de minha madrinha de batismo, Dona Alzira Fernandes. Era descendente de espanhóis, assim como meu pai. Já falei dela em uma das memórias do "Nos tempos do Gimenez", um livro que publiquei em 2021. Era nossa vizinha e freguesa do Gimenez, desde os tempos da mercearia. Mulecote, eu me divertia quando ela chegava no Gimenez e falava: "Christovam, tienes cará y ajo". Falava rápido. E o som ficava "carajo". Era engraçado! Meu pai respondia com alguma outra piada. E riam muito. Eram os tempos do Gimenez!
Volto ao hoje. Ao ver a cara do sujeito que ouviu a mulher falando "carajo", quase lhe recomendei: "em meio ácido use o magnésio mais". Preferi ficar quieto. Continuei a caminhada. Talvez não entedesse. Vai saber!
Na segunda volta sempre faço um caminho mais longo. Mais ou menos no meio, ouvi o balbuciar de um bebê em um carrinho. Empurrado pela mãe, com o pai a seu lado. Nada me veio à memória. Porém um sorriso se abriu em meu rosto. Os sons da criança eram incompreensíveis. Apenas tocaram a alma que respondeu com um sorriso.
Seguindo pelo caminho, perto da mata cercada, ouvi as cigarras. Cigarreavam em alta intensidade. Mais à frente, cruzei com um casal de cegos. Caminhavam de braços dados. Cada um com sua bengala.
Lembrei-me de meu avó materno, Arlindo. Uma vez viajei com ele, minha avó e minha mãe. Fomos para Brazópolis, sul de Minas. Visitamos uma prima de minha avó, casada com Sebastião, que era cego. Meu avô já andava um pouco esclerosado naquela época. De repente, o Sebastião se levantou e disse que ia ao banheiro. Meu avô também se levantou e vó Ananisa, lhe perguntou: "Onde você vai Arlindo". Ao que ele respondeu: "Vou acender a luz do banheiro pro Sebastião". Todo mundo caiu na gargalhada. Meu avô perguntou o que estava acontecendo. Ah, que saudades dos dois!
Mais, à frente passei pela ponte sobre um dos lagos do Botânico. As tábuas rangeram sob meus passos. E duas ou três fizeram um barulho surdo. Estavam um pouco soltas. Mais um pouco de emoção na caminhada!
Depois, passei por um trecho em que muitos quero-queros se aninham. Estavam especialmente irrequietos. Grasnavam e voavam. Fiquei me perguntando sobre a causa de tanta agitação? Talvez seja devido ao excesso de visitantes nessa época do ano.
Comecei a minha terceira volta. Começava a escurecer. As guitarras haviam silenciado. De repente as luzes se acenderam. No momento em que eu passava novamente pelo casal de cegos. A iluminação não devia fazer diferença para eles. Lembrei mais uma vez do episódio de meu avô com Sebastião. Estampei mais um sorriso no rosto.
Um pouco depois ouvi um ruído de avião. Nas minhas caminhadas sempre aparece algum. O Botânico fica na rota de muitos voos que chegam ao aeroporto de Curitiba. Que não é de Curitiba! Fica em São José dos Pinhais.
Mais para o final da terceira volta, os quero-queros continuavam grasnando. Talvez se perguntassem: "esse povo não vai embora?". O parque fecha às 19:30. Logo ficariam a sós. Em silêncio? Vai saber!
Nesse momento, olho mais uma vez para o céu. A lua está quase um fiapo! Ontem também estava assim. Vou checar no calendário lunar. É fase de lua nova. Daqui dois dias começa a fase de lua crescente.
Me lembrei de Claudia, mulher negra quilombola. É empreendedora rural e artesã. Dez dias atrás, Marcia. Daniel e eu a entrevistamos. Sobre seu saber e fazer empreendedor. Foi no Quilombo Restinga da Lapa. Ela faz artesanato com palhas. De milho e de bananeira. Nos contou que a palha tem que ser colhida na lua certa. Se não embolora. Um conhecimento transmitido de geração a geração. Sabedoria ancestral. Foi uma aula para mim!
Terminada a terceira volta, comecei o retorno para casa. Como se fosse uma despedida, ouvi o apito do trem. Hoje estava atrasado. Geralmente é por volta das 6:30. Perto do relógio, pude ver as horas. 19:16. 66 minutos de caminhada intensa. Mas, leve também. Ao ritmo dos sons do Botânico e das lembranças que carrego. Os sons da memória!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Cenas de Praia

Sob um guarda-sol, em uma cadeira de praia, observo o movimento do mar. Na praia do Mar de Fora, Ilha do Mel, o sol se esconde atrás das nuvens. Uma brisa vinda do mar agita as bandeiras colocadas pelos guarda-vidas e as franjas dos guarda-sóis.
Um navio cargueiro aponta na saída do Morro da Gruta. Lentamente passa entre as boias vermelha e verde que assinalam o trajeto a seguir. Vai ficando cada vez menor conforme se afasta em direção ao alto mar. De repente, some de vista. Para alguns, evidência mais que suficiente da curvatura da terra. Para outros, em um passe de mágica, some o navio! Independente do grupo que integre, continue comigo.
Meu olhar é atraído agora por um cão que sai das águas do mar. Grande e como um labrador, porém me pareceu de raça indefinida. Após chacoalhar o corpo expulsando parte da umidade dos pelos, rola pela areia já distante do mar. Caminha um pouco pela praia. Mais à frente retorna para dentro do mar. Fica apenas com a cabeça de fora e se balança com o vai-e-vem das ondas que quebram. Parece não ter dono. Depois de um tempo, desaparece na restinga à beira-mar.  Para mim, uma evidência da liberdade canina. O que será que busca após seu banho de mar? Água? Comida? Ou uma sombra para uma soneca? Não tenho a resposta.
De repente, vejo um homem caminhando paralelamente ao mar. Se parece com alguém já visto outro dia. Talvez por isso, o sigo com o olhar. Tento localizá-lo na memória recente. Sem sucesso. Entra no mar. Meu olhar agora é atraído pela mulher que cruza diagonalmente a areia. Se dirige ao ponto em que o homem entrara no mar. Em uma de suas mãos, carrega uma camiseta e um boné. Ela também veste boné e camiseta. Se abaixa e pega os chinelos do homem que entrara no mar. Pela aparência, deve ser sua esposa. No seu ato, enxergo, a evidência de uma relação de servir. Subserviência? Um acordo conveniente a ambos? Um mero ato de gentileza com o parceiro? Assim como no caso do cão, não tenho a resposta. Seja o que for, nesse momento é apenas uma das cenas de praia.
Me levanto e busco uma caipirinha, De limão e cachaça. A brisa marítima contínua forte.
E o sol escapou das nuvens. Me ajeito sob a sombra do guarda-sol. E escrevo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Truelo

Começo de viagem para o litoral paranaense. Como sempre, fui um dos primeiros passageiros a embarcar. Acomodado em um poltrona do corredor, me pus a observar a entrada dos demais passageiros e passageiras. 
Uma família de cinco pessoas ocupou as duas primeiras filas à frente, a minha direita. Mãe com um casal de filhos, a avó e o avô. A avó ditava as poltronas de cada um. Ela e a neta, à frente. Mãe e neto, logo atrás. Ao avô coube a poltrona à janela da terceira fila. Juntou-se a outro passageiro que embarcara um pouco antes.
Pai e filha passaram por mim. Ele a estimulando a localizar as poltronas 25 e 26. Ela quis saber onde estavam os números. Informada, foi lendo os números enquanto caminhava à frente do pai. 13, 14, 17, 18...
Um trio de moças foram as próximas a entrar. Ficaram em poltronas separadas. Uma à minha frente, a outra logo atrás e a terceira ao meu lado, também em poltrona de corredor. Depois de acomodadas, a última buscou algo na maleta de mão. Não encontrou. E disse para a amiga que deve ter ficado na mala maior no bagageiro. E, sentando-se, emendou: 
_ Vou ler um pouco.
Curioso, olhei na direção dela para ver que livro seria. Me surpreendi. Sidarta de Herman Hesse. Leitura de minha juventude. De Herman Hesse, guardo na memória a leitura d'O Lobo da Estepe. Pensei comigo mesmo:
_ Herman Hesse! Quem diria! 
A moça, talvez com não mais que vinte anos, abriu o livro. O marcador estava no começo. Sugeria que era uma leitura iniciada recentemente. Em torno de 40 páginas já lidas. Porém, poderia ser que fosse uma leitura iniciada há muito tempo. Quem vai saber? Só ela. 
Na minha imaginação, a vejo pegando o livro antes de sair de casa com destino à rodoviária. Ao lado da cama o livro em um móvel qualquer. Ela, de impulso, põe o livro na bolsa de crochê. E fala com as amigas:
_ Vou levar. Quem sabe consigo terminar a leitura na praia.
Ela lê um pouco. Coloca o marcador de volta na mesma página em que estava. Comenta com a amiga atrás de mim: Li duas palavras e cansei. Pega o celular. E vai pras redes sociais.
Imediatamente penso em um duelo. Sidarta contra Instagram. É uma covardia! Tenho vontade de dizer pra ela: volta pro livro. Parece que ela ouviu meus pensamentos. Guardou o celular na bolsa. Retomou a leitura. Avançou algumas páginas. Eu fiquei torcendo pela vitória de Sidarta. 
Mas eis que chega o terceiro personagem. Imbatível. O duelo vira um truelo. O sono a faz fechar o livro. Ela se ajeita na poltrona. E adormece.