Contos e crônicas que vão surgindo no tempo. Na balança da vida, para o quase insuportável peso das impossibilidades, ofereço a insustentável leveza das possibilidades (Fernando Antonio Prado Gimenez)
terça-feira, 26 de agosto de 2025
Crônicas portuguesas 6 - Um olhar sobre outro olhar
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 5 - A gaivota, a pipa e uma cicatriz
O vento continua. Desde ontem. Com ele, a sensação térmica cai. Não é o caso de pegar uma blusa. O frio é suportável. Começo a ler o livro adquirido ontem. Mujeres que compran flores. Logo no começo uma fala de Olivia, mexe comigo:
_ Siempre me gustaron las personas con cicatrices, como los árboles. De hecho, desconfío de las personas que pasados los cuarenta no tienen ninguna.
A fala da florista me lembrou de poesia que escrevi para minhas filhas. Tempos atrás. A busco em meu blog:
Das filhas e das dores
Resisto ao desejo: vê-las sem dores.
Ao contrário de Galeano, a Deus não pedi que as dores delas me fossem destinadas.
Mesmo que assim desejasse, não poderia fazê-lo.
Deus não há!
Na vida, já tiveram sua cota.
De dores. Eu também.
Sobrevivemos.
Outras virão. Sobreviveremos.
Neste tempo, entre a luz e a escuridão final, fiz e farei alguns dos curativos de suas feridas.
E elas, dos meus.
As outras dores?
Outros e outras trataram e tratarão.
Algumas, cada um cuidou por conta própria.
Todas parte da vida.
A vida de cada um. Que tem que ser vivida por si mesmo.
Nesse revisitar de minha própria escrita, cortei o verso final. Era desnecessário.
As cicatrizes surgem das dores. Sem dores, não seríamos confiáveis para Olívia. Minhas filhas se aproximam dos quarenta. Já têm suas cicatrizes. São confiáveis.
Ao pousar um pouco o livro, ouvi um barulho. Como se fosse um bater de folhas plásticas. Ou de papel. Ao mesmo tempo, ouvi o grasnar de uma gaivota. Ao olhar em direção às fontes do som, vejo a gaivota no topo do telhado ao lado. Ainda está lá enquanto escrevo. Um pouco mais distante, uma pipa voa alto e oscila com o vento forte. Dela vinha o canto. Que me pareceu o vibrar de folhas ao vento.
A gaivota e a pipa. Uma voa, apesar do vento. Tem vida própria. A outra voa com o vento. Depende do engenho humano. Me lembro de que nunca fui muito habilidoso no fazer de pipas na adolescência. Assim como não consegui a simetria com os pedaços de melão, não o conseguia no corte da pipa. As memórias, às vezes, são como cicatrizes. Marcas que se acumulam em você. Esta cicatriz é bem pequena. Não doeu muito. Há outras maiores. Mas quem não as tem?
Segundo Olivia, a florista, os que não são confiáveis. Ainda bem que tenho a minha cota. Pode confiar!
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 4 - Sardinhas à discrição
domingo, 10 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 3 - Sonho de imigrante
sábado, 2 de agosto de 2025
Crônicas Portuguesas 2 - Descobertas e reencontros
Há cinco dias em Portugal, já tive momentos de descobertas e de reencontros. Outro dia, no meio da tarde, parti em busca de uma sorveteria nas proximidades de onde estamos. Pelo Googlemaps, me informei da existência da Gelados Monte Neve, cerca de um quilômetro de distância. Uma sorveteria pequena, com um leque não muito diversificado de opções.
Apostei no conhecido pistache e mesclei com o desconhecido mirtilo. Boa mistura. Sentei-me junto a uma das duas mesinhas externas. Logo depois, o dono, que me servira o sorvete, veio checar se a mesa e a cadeira estavam limpas. Manutenção nas ruas próximas estavam empoeirando tudo. Mas a minha cadeira, assim como a mesinha, me pareceram limpas.Aproveitei para lhe perguntar se o gelado era de fabricação própria. Confirmou e complementou:
_ É minha mulher que faz. Ainda.
Ela estava dentro a conversar com outra senhora. Pelos cabelos grisalhos de ambos, e pelo "ainda" de sua resposta, deduzi que devem estar nesse comércio há muitos anos. Lembrei-me de histórias que minha mãe contava após o casamento com meu pai. Começo dos anos 50. Ela passou a fazer os sorvetes do Bar e Sorveteria do Gimenez, na esquina da rua Paranaguá com a Goiás. Em minha mente, juntaram-se as duas pequenas empresas. Uma fusão de descoberta e reencontro. A descoberta da Gelados Monte Neve me fez reencontrar memórias que me contaram sobe o bar e sorveteria de meus pais.
Findo o sorvete, decido flanar por esta parte de Almada. Placas indicavam o centro histórico. Caminhei em sua direção. Depois de quinze minutos, vejo um prédio, com um letreiro ao meio da fachada frontal - Incrível Almadense. E, pouco acima das três portas amplas, outro letreiro menor: Cine Incrivel. Meu flanar pelo centro de Almada me trouxe à frente daquela que foi a primeira sala de cinema da cidade. Aprendi sobre isso em um documento da Câmara Municipal de Almada que encontrei na Internet.
Ah, as coincidências da vida! Em 1999, após participar de um congresso em Nápoles, sozinho, fui até Foggia passear por uma região da Itália que não conhecia. Sem destino, na manhã do segundo dia, peguei um ônibus para a região litorânea. Desci em Manfredônia, e me dirigi à praia. Um pouco antes de chegar a ela, vi as ruínas do Cinema Impero, que foi o primeiro cinema de Manfredonia. Tirei uma fotografia que até hoje ilustra as edições da Revista Livre de Cinema. Coloco nesta crônica as fotografias dos dois cinemas que o acaso colocou nos meus caminhos separados por pouco mais de 25 anos. Mais uma vez, uma descoberta no presente me leva a um reencontro com o passado.
Por fim, no meio da tarde, após o almoço em casa, decidi vir ao Quiosquices, um quiosque no centro do Largo 5 de Outubro em Almada. A dois minutos de onde estamos hospedados. Vim com a ideia de pedir uma groselha com gelo e água com gás. A atendente ficou surpresa. Não servem assim a groselha desse lado do Rio Tejo. Ela deu duas opções: a groselha com pedras de gelo ou o tango. Perguntei o que era. Ela brincou é uma dança! Mas é também um imperial com groselha. Lembra do imperial da primeira crônica portuguesa? Pois é, ele de novo. Uma descoberta recente.
Pedi o tango, sentei-me à sombra em uma das mesas do Quiosquices, e me pus a escrever esta crônica. Logo mais vou dançar outro tango!




