Depois da sessão de fisioterapia, caminho em direção ao Mercado Municipal. Manhã nublada e fresca, depois da chuva da madrugada. Próximo à entrada, enxergo duas caixas de madeira clara vazias. Imediatamente as reconheço: caixas de transporte de bacalhau seco. À minha memória, surgem imagens dos tempos do Gimenez. Doces memórias. Apesar do sal do bacalhau!
O Supermercado Gimenez tinha um estoque diversificado. Característica inerente deste tipo de empresa. O chamado autosserviço precisa ter uma diversidade ampla de produtos de forma a estimular a compra de impulso. Se você gosta de fazer compras em supermercados, como eu, provavelmente já foi vítima desta tática do varejo. Vai em busca de um ou dois produtos, porém chega no caixa com a cestinha cheia. E pensando: deveria ter pegado um carrinho!
Assim, era o Gimenez. Cheio de produtos que atraíam a atenção da freguesia. Entre eles, sempre havia uma caixa de bacalhau da Noruega próxima ao açougue. A caixa ficava no topo de um balcão, inclinada em torno de 45 graus, com as peças de bacalhau à mostra. O bacalhau era vendido o ano todo. Mas na época da Semana Santa e Páscoa, a demanda era maior.
Minha memória, porém, não é somente isso. Tinha algo que eu adorava fazer. Muitas vezes, ao passar próximo ao bacalhau, tirava uma lasquinha bem fina de uma das peças. Colocava na boca e deixava o sal se derreter. Depois mastigava o pequeno pedaço do peixe. Lembrar disso agora, até me deu água na boca. Algumas vezes, não conseguia tirar uma lasca com a mão. Nesses momentos, pedia ao açougueiro: me empresta uma faca.
Muitas vezes devo ter falado:
_ Altino, me ajuda aqui. Corta um pedacinho do bacalhau.
Altino foi um dos açougueiros que trabalhou no Supermercado Gimenez. Era gente boa! Eu me admirava com a habilidade que ele tinha em desossar um traseiro ou dianteiro de boi. E me espantava quando ele comia um pequeno bife de boi cru. Mal imaginava eu que, décadas depois, eu me tornaria um consumidor de carne de onça em Curitiba. Além dos bifinhos que comia cru, Altino tinha um benefício adicional ao salário de açougueiro. Aos sábados, ao final das atividades da semana, levava pra casa um quilo de algum tipo de carne. Era uma forma de seu Gimenez tentar manter o profissional no emprego. Era um tipo de profissão não muito fácil de recrutar.
Quanto às peças de bacalhau, vezenquando, um ou outro freguês pedia:
_ Me corta um pedaço do bacalhau. Mas do lado que não foi rasgado.
Se eu estava por perto, Altino me olhava e piscava com um olhar maroto. Muitas vezes, o pedaço do lado rasgado ia parar na cozinha de nossa casa. Atravessava a rua Paranaguá, pois morávamos praticamente em frente ao Gimenez, desde que a Casa Gimenez virou supermercado. Mas, esta é outra história. Ou memória!
Pois é, ao ver duas caixas vazias de bacalhau em frente ao Mercado Municipal de Curitiba, me vieram estas doces lembranças dos tempos do Gimenez. Temperadas pelo sal das lascas de bacalhau que me deliciaram nos anos 70 e começo dos anos 80 do século passado.