terça-feira, 4 de março de 2025

Sons do Botânico

Não é a primeira vez que escrevo sobre sons em algum ambiente. Hoje, fui para mais uma caminhada. Moro nas proximidades do Jardim Botânico, talvez 200 ou 300 metros da entrada principal. Às 18:10, comecei a descida em direção a esta entrada. O relógio na esquina do Botânico marca a hora e meu começo de caminhada mais intenso. Até chegar a ele, tenho que atravessar a rua onde moro e a avenida. Os sinaleiros tornam este trecho mais lento.
Na entrada do Jardim Botânico, um casal à minha frente conversava. Não prestei atenção nas palavras. Porém, a voz do homem me soou conhecida. Ao me aproximar deles, reconheci um dos funcionários da secretaria do Setor da UFPR em que trabalho. Lhe falei que estava reconhecendo a voz. E nos cumprimentamos. 
Passeibpor eles, que foram em outra direção. Comecei a minha primeira volta. Logo mais à frente, um rapaz com fone de ouvido passou por mim. Caminhávamos em sentidos opostos. "Em meio ácido é o magnésio mais". Ouvi ele dizer. Provavelmente falava ao celular. Estava só. Fiquei curioso. Para quem falava? Algum colega de trabalho? Algum estudante? Alguém com acidez no estômago. Impossível saber!
Logo mais à frente, ouvi passos mais apressados atrás de mim. Logo, fui ultrapassado por uma moça que corria. A visão me fez lembrar de Dalva, professora de educação física e amiga dos tempos que trabalhei na UEM. Uma vez comentei com ela que não gostava de correr. Prefiro as caminhadas. Ela me disse: "Um dia seu corpo vai pedir. E você vai começar a correr". Ela estava certa. Mas isso foi há mais de vinte anos. Será que meu corpo vai pedir agora que já cheguei aos 67? Vai saber!
Mais a frente, ainda na primeira volta passei por mais um casal. Ouvi ela dizer: Carajo! Tienes que hablar com ella". Graças aos meus estudos de espanhol ouvi perfeitamente. Me lembrei de minha madrinha de batismo, Dona Alzira Fernandes. Era descendente de espanhóis, assim como meu pai. Já falei dela em uma das memórias do "Nos tempos do Gimenez", um livro que publiquei em 2021. Era nossa vizinha e freguesa do Gimenez, desde os tempos da mercearia. Mulecote, eu me divertia quando ela chegava no Gimenez e falava: "Christovam, tienes cará y ajo". Falava rápido. E o som ficava "carajo". Era engraçado! Meu pai respondia com alguma outra piada. E riam muito. Eram os tempos do Gimenez!
Volto ao hoje. Ao ver a cara do sujeito que ouviu a mulher falando "carajo", quase lhe recomendei: "em meio ácido use o magnésio mais". Preferi ficar quieto. Continuei a caminhada. Talvez não entedesse. Vai saber!
Na segunda volta sempre faço um caminho mais longo. Mais ou menos no meio, ouvi o balbuciar de um bebê em um carrinho. Empurrado pela mãe, com o pai a seu lado. Nada me veio à memória. Porém um sorriso se abriu em meu rosto. Os sons da criança eram incompreensíveis. Apenas tocaram a alma que respondeu com um sorriso.
Seguindo pelo caminho, perto da mata cercada, ouvi as cigarras. Cigarreavam em alta intensidade. Mais à frente, cruzei com um casal de cegos. Caminhavam de braços dados. Cada um com sua bengala.
Lembrei-me de meu avó materno, Arlindo. Uma vez viajei com ele, minha avó e minha mãe. Fomos para Brazópolis, sul de Minas. Visitamos uma prima de minha avó, casada com Sebastião, que era cego. Meu avô já andava um pouco esclerosado naquela época. De repente, o Sebastião se levantou e disse que ia ao banheiro. Meu avô também se levantou e vó Ananisa, lhe perguntou: "Onde você vai Arlindo". Ao que ele respondeu: "Vou acender a luz do banheiro pro Sebastião". Todo mundo caiu na gargalhada. Meu avô perguntou o que estava acontecendo. Ah, que saudades dos dois!
Mais, à frente passei pela ponte sobre um dos lagos do Botânico. As tábuas rangeram sob meus passos. E duas ou três fizeram um barulho surdo. Estavam um pouco soltas. Mais um pouco de emoção na caminhada!
Depois, passei por um trecho em que muitos quero-queros se aninham. Estavam especialmente irrequietos. Grasnavam e voavam. Fiquei me perguntando sobre a causa de tanta agitação? Talvez seja devido ao excesso de visitantes nessa época do ano.
Comecei a minha terceira volta. Começava a escurecer. As guitarras haviam silenciado. De repente as luzes se acenderam. No momento em que eu passava novamente pelo casal de cegos. A iluminação não devia fazer diferença para eles. Lembrei mais uma vez do episódio de meu avô com Sebastião. Estampei mais um sorriso no rosto.
Um pouco depois ouvi um ruído de avião. Nas minhas caminhadas sempre aparece algum. O Botânico fica na rota de muitos voos que chegam ao aeroporto de Curitiba. Que não é de Curitiba! Fica em São José dos Pinhais.
Mais para o final da terceira volta, os quero-queros continuavam grasnando. Talvez se perguntassem: "esse povo não vai embora?". O parque fecha às 19:30. Logo ficariam a sós. Em silêncio? Vai saber!
Nesse momento, olho mais uma vez para o céu. A lua está quase um fiapo! Ontem também estava assim. Vou checar no calendário lunar. É fase de lua nova. Daqui dois dias começa a fase de lua crescente.
Me lembrei de Claudia, mulher negra quilombola. É empreendedora rural e artesã. Dez dias atrás, Marcia. Daniel e eu a entrevistamos. Sobre seu saber e fazer empreendedor. Foi no Quilombo Restinga da Lapa. Ela faz artesanato com palhas. De milho e de bananeira. Nos contou que a palha tem que ser colhida na lua certa. Se não embolora. Um conhecimento transmitido de geração a geração. Sabedoria ancestral. Foi uma aula para mim!
Terminada a terceira volta, comecei o retorno para casa. Como se fosse uma despedida, ouvi o apito do trem. Hoje estava atrasado. Geralmente é por volta das 6:30. Perto do relógio, pude ver as horas. 19:16. 66 minutos de caminhada intensa. Mas, leve também. Ao ritmo dos sons do Botânico e das lembranças que carrego. Os sons da memória!