quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Cenas de Praia

Sob um guarda-sol, em uma cadeira de praia, observo o movimento do mar. Na praia do Mar de Fora, Ilha do Mel, o sol se esconde atrás das nuvens. Uma brisa vinda do mar agita as bandeiras colocadas pelos guarda-vidas e as franjas dos guarda-sóis.
Um navio cargueiro aponta na saída do Morro da Gruta. Lentamente passa entre as boias vermelha e verde que assinalam o trajeto a seguir. Vai ficando cada vez menor conforme se afasta em direção ao alto mar. De repente, some de vista. Para alguns, evidência mais que suficiente da curvatura da terra. Para outros, em um passe de mágica, some o navio! Independente do grupo que integre, continue comigo.
Meu olhar é atraído agora por um cão que sai das águas do mar. Grande e como um labrador, porém me pareceu de raça indefinida. Após chacoalhar o corpo expulsando parte da umidade dos pelos, rola pela areia já distante do mar. Caminha um pouco pela praia. Mais à frente retorna para dentro do mar. Fica apenas com a cabeça de fora e se balança com o vai-e-vem das ondas que quebram. Parece não ter dono. Depois de um tempo, desaparece na restinga à beira-mar.  Para mim, uma evidência da liberdade canina. O que será que busca após seu banho de mar? Água? Comida? Ou uma sombra para uma soneca? Não tenho a resposta.
De repente, vejo um homem caminhando paralelamente ao mar. Se parece com alguém já visto outro dia. Talvez por isso, o sigo com o olhar. Tento localizá-lo na memória recente. Sem sucesso. Entra no mar. Meu olhar agora é atraído pela mulher que cruza diagonalmente a areia. Se dirige ao ponto em que o homem entrara no mar. Em uma de suas mãos, carrega uma camiseta e um boné. Ela também veste boné e camiseta. Se abaixa e pega os chinelos do homem que entrara no mar. Pela aparência, deve ser sua esposa. No seu ato, enxergo, a evidência de uma relação de servir. Subserviência? Um acordo conveniente a ambos? Um mero ato de gentileza com o parceiro? Assim como no caso do cão, não tenho a resposta. Seja o que for, nesse momento é apenas uma das cenas de praia.
Me levanto e busco uma caipirinha, De limão e cachaça. A brisa marítima contínua forte.
E o sol escapou das nuvens. Me ajeito sob a sombra do guarda-sol. E escrevo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Truelo

Começo de viagem para o litoral paranaense. Como sempre, fui um dos primeiros passageiros a embarcar. Acomodado em um poltrona do corredor, me pus a observar a entrada dos demais passageiros e passageiras. 
Uma família de cinco pessoas ocupou as duas primeiras filas à frente, a minha direita. Mãe com um casal de filhos, a avó e o avô. A avó ditava as poltronas de cada um. Ela e a neta, à frente. Mãe e neto, logo atrás. Ao avô coube a poltrona à janela da terceira fila. Juntou-se a outro passageiro que embarcara um pouco antes.
Pai e filha passaram por mim. Ele a estimulando a localizar as poltronas 25 e 26. Ela quis saber onde estavam os números. Informada, foi lendo os números enquanto caminhava à frente do pai. 13, 14, 17, 18...
Um trio de moças foram as próximas a entrar. Ficaram em poltronas separadas. Uma à minha frente, a outra logo atrás e a terceira ao meu lado, também em poltrona de corredor. Depois de acomodadas, a última buscou algo na maleta de mão. Não encontrou. E disse para a amiga que deve ter ficado na mala maior no bagageiro. E, sentando-se, emendou: 
_ Vou ler um pouco.
Curioso, olhei na direção dela para ver que livro seria. Me surpreendi. Sidarta de Herman Hesse. Leitura de minha juventude. De Herman Hesse, guardo na memória a leitura d'O Lobo da Estepe. Pensei comigo mesmo:
_ Herman Hesse! Quem diria! 
A moça, talvez com não mais que vinte anos, abriu o livro. O marcador estava no começo. Sugeria que era uma leitura iniciada recentemente. Em torno de 40 páginas já lidas. Porém, poderia ser que fosse uma leitura iniciada há muito tempo. Quem vai saber? Só ela. 
Na minha imaginação, a vejo pegando o livro antes de sair de casa com destino à rodoviária. Ao lado da cama o livro em um móvel qualquer. Ela, de impulso, põe o livro na bolsa de crochê. E fala com as amigas:
_ Vou levar. Quem sabe consigo terminar a leitura na praia.
Ela lê um pouco. Coloca o marcador de volta na mesma página em que estava. Comenta com a amiga atrás de mim: Li duas palavras e cansei. Pega o celular. E vai pras redes sociais.
Imediatamente penso em um duelo. Sidarta contra Instagram. É uma covardia! Tenho vontade de dizer pra ela: volta pro livro. Parece que ela ouviu meus pensamentos. Guardou o celular na bolsa. Retomou a leitura. Avançou algumas páginas. Eu fiquei torcendo pela vitória de Sidarta. 
Mas eis que chega o terceiro personagem. Imbatível. O duelo vira um truelo. O sono a faz fechar o livro. Ela se ajeita na poltrona. E adormece.