Nas proximidades, depois de alguns minutos de caminhada, embarco no segundo tubo. Pra quem não é de Curitiba, esclareço: tubo é um ponto de ônibus que aspira ser estação de metrô. Também chamado estação tubo. Espero pelo primeiro ônibus. São apenas duas opções. Um em direção à Praça Ruy Barbosa. O outro pode me levar mais longe. Para o Campo Comprido. Também passa pela Praça Ruy Barbosa.
É o segundo que aparece. Embarco pensando em ir até a estação Praça Osório. De lá caminhar pela praça e depois pela rua XV. Mas o espírito flanador está dominante hoje! Desço na terceira estação e sigo pela rua Barão de Rio Branco, depois de cruzar a Praça Eufrásio Correia. Rumo ao centro.
A Barão de Rio Branco é continuada pela Rua Riachuelo. Antes de chegar ao fim da primeira, passo em frente ao Museu da Imagem e do Som. Me surge a ideia de visitá-lo. Mais uma vez. Há algumas semanas li sobre mudanças nas exposições ali disponíveis. Mas assim como veio a ideia se foi. Rápida. Flanar é a intenção.
Logo em seguida, alguns pingos de chuva no caminho. Sob as marquises, me protejo deles. Ainda esparsos, junto com o mormaço da manhã, prenunciam uma tempestade. Pelo menos é a previsão dos meteorologistas de plantão.
Sigo em direção ao Cine Passeio que está na Riachuelo. Logo após o Paço da Liberdade, quase na esquina da Barão de Rio Branco, Riachuelo, Tobias de Macedo e Alfredo Bufren (Sim! É uma esquina de quatro ruas! A Tobias de Macedo vira Alfredo Bufren). Coisas de Curitiba! Ouço o convite:
_ Oi gatão! Vamu lá?
Ah! Essa esquina sempre com movimento das trabalhadoras do sexo! Impossível passar por ela sem notá-las. Sorrio e recuso o convite. Mas uma dúvida me surge: seria o convite da moça uma forma dos deuses me protegerem da tempestade? Buscar um lugar seguro!
Sem resposta clara, espero o sinal de pedestre abrir e sigo em frente. Três quadras à frente, vejo uma moça lavando a calçada em frente ao Mahá. Restaurante que Fernanda, a filha caçula, me apresentou. Do qual me tornei freguês. Lhe pergunto se servirão almoço hoje. A partir do meio-dia é a resposta.
Ainda faltam 30 minutos. Decido flanar em direção ao Largo da Ordem. Lá, na Casa Romário Martins termino de visitar a exposição sobre Poty Lazaroto. Tinha visto parte dela há algumas semanas. Também em uma manhã de domingo.
Assistindo um documentário sobre o artista, surge mais um gato na manhã desse domingo. É o Gato Preto de Edgar Allan Poe que Poty ilustrou nos anos 80. Parte das ilustrações são exibidas no documentário enquanto um narrador lê trechos do livro de Poe. Uma lindeza!
Ao contrário da moça na esquina de quatro ruas no centro de Curitiba. E afinal a tempestade não veio. Me parece que o convite não tinha nada a ver com proteção das divindades. Ou, quem sabe, eram outros os desejos divinos para esse flanador sexagenário? Quem pode responder? Eu não!
Ao voltar ao Mahá, surge essa crônica. Junto com a boa comida e a caipirinha de cataia, a escrita me acalma a alma. Para terminar, o delicioso sorvete de paçoca. Longa vida ao Mahá.