sábado, 6 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 8 - Necesito un bar de carta corta y mesero autoritario

Pode parecer estranho começar uma crônica portuguesa com um título em espanhol. Com os acasos da vida até as coisas estranhas se explicam.  Acredite em mim. Me acompanha que, ao final da crônica, você me entenderá. Mas seja paciente. Não vá direto ao final! O que vem antes do fim também merece a sua leitura. Mas a escolha é sua.

Ontem à noite, fomos assistir a uma apresentação de fado gratuita no Cais das Descobertas e Jardim da Constituição. Parte da programação Noites no Cais, organizada pela Câmara (Prefeitura) Municipal de Lagos. Vimos e ouvimos as fadistas lacobrigenses Marta Alves e Helena Candeias em uma apresentação belíssima de quase duas horas. A primeira vive em Lisboa atualmente, conforme contou ao público. A segunda, a conhecemos duas semanas atrás em apresentação no Café Vadio em uma de suas noites de fado. Vive em Lagos. Ambas maravilhosas.

Enlevado pela música e canto, em determinado momento me vi pensando sobre as escolhas que a vida me trouxe. No começo do ano, graças ao fato de minha companheira ter sido selecionada para uma residência artística em Lagos, decidi acompanhá-la. Articulei um projeto de cooperação com uma universidade portuguesa e vim. Foram 15 dias de férias e 30 de trabalho em uma investigação sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual português. Após cada dia de trabalho, escolhas sobre o que visitar e conhecer por aqui. E nos finais de semana também. É óbvio!

Pois é, em minha vida o destino me trouxe muitos momentos de decisão. Ontem, ouvindo fado, que também significa destino, me ocorreu a ideia de que só se alcançam os fados a partir de nossas escolhas. Fiz muitas em minhas vidas. Algumas em cardápios longos, com muitas opções. Outras em cardápios curtos, quase únicas. Como se um garçom autoritário me dissese:
_ É o que tem pra hoje!
Me sinto feliz em pensar que, na maioria das vezes, foram escolhas próprias. Eram aqueles caminhos pelos quais queria trilhar. Com sucessos. Com fracassos. Porém minhas. E, também, refleti sobre as escolhas que não fiz. Por onde não fui. O que será que desconheci?
E hoje, em um sábado à beira-mar, retomei a leitura do livro - Mujeres que compran flores - que já inspirou uma crônica portuguesa. As personagens principais são cinco mulheres que convivem em um bairro de Madrid. Em suas conversas, volta e meia surgem as escolhas. Feitas. A fazer. Surgem as dúvidas também.
Na passagem de hoje, três delas foram a um bar no final da tarde - Cassandra, Victoria e Marina. A primeira, executiva de sucesso, chamada pelas outras de superwoman, sempre decidida, se dirigiu às outras:
_ Necesito un bar de carta corta y camarero autoritario.
Uma fala surpreendente saindo dos lábios dessa personagem. Sim, às vezes, na vida precisamos de um bar de cardápio curto e um garçom que decida por nós. Porém, na maioria das vezes que os cardápios sejam ricos e os garçons bons ouvintes. No máximo nos expliquem algumas opções desconhecidas.  Ou seja, que corramos os riscos de nossas escolhas. Chegando a nosso fado e desconhecendo os que não escolhemos. Por nossa própria conta e risco.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 7 - Sorte ou azar do caralho?

 

Começo essa crônica lembrando de uma frase ouvida de um atendente em uma padaria e pastelaria de Lagos. Lembre-se, pastelaria é confeitaria aqui em Portugal. Havíamos deixado nossas roupas em uma lavanderia, ou lavandaria como dizem aqui, de autosserviço. O ciclo de lavagem duraria pouco mais de trinta minutos. Minha companheira e eu seguimos a sugestão de outra cliente da lavandaria:
_ Ali na frente tem uma pastelaria ótima.
Nossa intenção era tomar um café ou outra bebida gelada. O calor matinal estava já muito forte. Vimos no cardápio uns drinques gelados com frutas tropicais. Pareceu uma boa pedida. Ao escolhermos e pedirmos, o atendente pediu para confirmarmos os números das bebidas no cardápio, só para ter certeza do que pedíramos. Dois ou três minutos depois ele voltou:
_ A máquina quebrou! Azar do caralho!
Além de rir da expressão, só nos restou a opção de tomarmos um sumo de laranja. Espremido na hora. Gelado. Nosso conhecido suco de laranja.
Por vários dias, talvez mais de uma semana, levei comigo a intenção de escrever algo sobre a expressão usada pelo atendente. Mas, faltava a inspiração.
Hoje, depois de um dia de trabalho, tivemos a oportunidade de passar algumas horas na Meia Praia em Lagos. Para nossa sorte, o horário de verão europeu permite dia claro até por volta das nove horas. Assim, entre 16 e 19 horas, ainda é um período agradável à beira-mar.
As praias por aqui tem partes públicas e partes sob  concessão. Nestas é possível alugar cadeiras de praia ou espreguiçadeiras e um guarda-sol, ou tenda, como aqui chamam. Estruturas fixas na areia da praia, com uma cobertura  que lembra um chapéu chinês. Os nossos guarda- sóis aqui são chamados chapéus-de-sol. Pelo menos nessa parte de Portugal.
O aluguel por um dia inteiro, de uma tenda e duas espreguiçadeiras, custa 15 euros. Após as 15 horas, o preço cai para 10 euros. Por duas vezes, no entanto, chegamos à Meia Praia, após as quinze horas e tivemos a sorte de não aparecer ninguém para cobrar. Hoje foi a segunda vez. Sorte do caralho!
Pois é, nossa estadia em terras algarvianas está se aproximando de seu fim. Dia 10 embarcaremos de volta para o Brasil. Porém no dia 8, já retornaremos a Lisboa para os compromissos finais dessa viagem de estudos para mim e de residência criativa para minha companheira.
Pensando bem, foram poucas as vezes que a boa fortuna não nos favoreceu nessa viagem. Além de muita leitura, análises e  reflexão, e alguma produção escrita, inclusive esta série de crônicas, levo comigo dessa viagem, uma admiração grande por esta bela região de Portugal onde ficamos quase 30 dias. Uma sorte do caralho!
Como foi a sorte de ver esse cachorro na janela de sua casa. Estávamos na cobertura da casa onde vivemos as três últimas semanas em Lagos. Minha companheira foi quem o viu pela primeira vez há três dias. Hoje lá estava ele de novo! É ou não é uma sorte do caralho poder levar este registro fotográfico do cachorro namoradeiro da rua Infante de Sagres em Lagos? Será uma memória inesquecível desse curto período em Lagos.