Pode parecer estranho começar uma crônica portuguesa com um título em espanhol. Com os acasos da vida até as coisas estranhas se explicam. Acredite em mim. Me acompanha que, ao final da crônica, você me entenderá. Mas seja paciente. Não vá direto ao final! O que vem antes do fim também merece a sua leitura. Mas a escolha é sua.Ontem à noite, fomos assistir a uma apresentação de fado gratuita no Cais das Descobertas e Jardim da Constituição. Parte da programação Noites no Cais, organizada pela Câmara (Prefeitura) Municipal de Lagos. Vimos e ouvimos as fadistas lacobrigenses Marta Alves e Helena Candeias em uma apresentação belíssima de quase duas horas. A primeira vive em Lisboa atualmente, conforme contou ao público. A segunda, a conhecemos duas semanas atrás em apresentação no Café Vadio em uma de suas noites de fado. Vive em Lagos. Ambas maravilhosas.
Enlevado pela música e canto, em determinado momento me vi pensando sobre as escolhas que a vida me trouxe. No começo do ano, graças ao fato de minha companheira ter sido selecionada para uma residência artística em Lagos, decidi acompanhá-la. Articulei um projeto de cooperação com uma universidade portuguesa e vim. Foram 15 dias de férias e 30 de trabalho em uma investigação sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual português. Após cada dia de trabalho, escolhas sobre o que visitar e conhecer por aqui. E nos finais de semana também. É óbvio!
Pois é, em minha vida o destino me trouxe muitos momentos de decisão. Ontem, ouvindo fado, que também significa destino, me ocorreu a ideia de que só se alcançam os fados a partir de nossas escolhas. Fiz muitas em minhas vidas. Algumas em cardápios longos, com muitas opções. Outras em cardápios curtos, quase únicas. Como se um garçom autoritário me dissese:
_ É o que tem pra hoje!
Me sinto feliz em pensar que, na maioria das vezes, foram escolhas próprias. Eram aqueles caminhos pelos quais queria trilhar. Com sucessos. Com fracassos. Porém minhas. E, também, refleti sobre as escolhas que não fiz. Por onde não fui. O que será que desconheci?
E hoje, em um sábado à beira-mar, retomei a leitura do livro - Mujeres que compran flores - que já inspirou uma crônica portuguesa. As personagens principais são cinco mulheres que convivem em um bairro de Madrid. Em suas conversas, volta e meia surgem as escolhas. Feitas. A fazer. Surgem as dúvidas também.
Na passagem de hoje, três delas foram a um bar no final da tarde - Cassandra, Victoria e Marina. A primeira, executiva de sucesso, chamada pelas outras de superwoman, sempre decidida, se dirigiu às outras:
_ Necesito un bar de carta corta y camarero autoritario.
Uma fala surpreendente saindo dos lábios dessa personagem. Sim, às vezes, na vida precisamos de um bar de cardápio curto e um garçom que decida por nós. Porém, na maioria das vezes que os cardápios sejam ricos e os garçons bons ouvintes. No máximo nos expliquem algumas opções desconhecidas. Ou seja, que corramos os riscos de nossas escolhas. Chegando a nosso fado e desconhecendo os que não escolhemos. Por nossa própria conta e risco.
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