sábado, 17 de janeiro de 2026

Conto d'O

Sonho. Com vovó. Vovô. Corro como porco solto. Ronco. Soo como motor roto. Chocho!

No zoo. Cornos grossos. Voo do pombo solto. Lobo bobo. Potro sonso. O boto no poço. Monos monsos!

No horto, colho o coco. Olor do olmo. Novo broto. Sol no morro. Socorro! Só corro!

Cozo. Odor do bolo no ponto. Fofo. Pronto. Corto grosso. Como. Gosto!

Coo. Doso. Sorvo no copo roxo formoso. Longo golo.

Rodo o jogo do ogro. Moro no oco do fosso. No solo oposto, logo obro. Com dolo. Rolo o ovo. Coro. Oro.Troço?

Soldo o forro. No porto, sondo o fogo morto. Som longo. Doloroso!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Cinco minutos ou corrida contra o relógio

Cinco minutos. Este era o tempo disponível. Sozinho, ele teria que ser rápido. Em cinco minutos, alguém pode contar uma história longa. Oralmente. Por escrito? Aí é outra história. Ele ia tentar. O que poderia sair disso? Só no final ele saberia. E eu também. Nesse momento, restavam três minutos. Parecia que ele não iria longe. Ou iria? Para saber, eu teria que esperar até o fim. Mais um minuto passou. Quando parecia que ele entrava no ritmo, ela chegou. Me olhou de soslaio. Piscou. Sorriu. Eu fiquei sem jeito. Ela ia dizer algo a ele. Mas, antes disso ele falou. Acabou o tempo. Chegamos até aqui. Agora só amanhã.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Oi gatão! Vamu lá?

No meio da manhã de domingo decido flanar por Curitiba. Saio de casa nas proximidades do Jardim Botânico em direção ao Mercado Municipal. Embora possa parecer com destino certo, o espírito do flanador (seria esta a palavra em português para flaneur?) me acompanha. Me sentindo purista hoje! Sem francesismo!
Nas proximidades, depois de alguns minutos de caminhada, embarco no segundo tubo. Pra quem não é de Curitiba, esclareço: tubo é um ponto de ônibus que aspira ser estação de metrô. Também chamado estação tubo. Espero pelo primeiro ônibus. São apenas duas opções. Um em direção à Praça Ruy Barbosa. O outro pode me levar mais longe. Para o Campo Comprido. Também passa pela Praça Ruy Barbosa.
É o segundo que aparece. Embarco pensando em ir até a estação Praça Osório. De lá caminhar pela praça e depois pela rua XV. Mas o espírito flanador está dominante hoje! Desço na terceira estação e sigo pela rua Barão de Rio Branco, depois de cruzar a Praça Eufrásio Correia. Rumo ao centro.
A Barão de Rio Branco é continuada pela Rua Riachuelo. Antes de chegar ao fim da primeira, passo em frente ao Museu da Imagem e do Som. Me surge a ideia de visitá-lo. Mais uma vez. Há algumas semanas li sobre mudanças nas exposições ali disponíveis. Mas assim como veio a ideia se foi. Rápida. Flanar é a intenção.
Logo em seguida, alguns pingos de chuva no caminho. Sob as marquises, me protejo deles. Ainda esparsos, junto com o mormaço da manhã, prenunciam uma tempestade. Pelo menos é a previsão dos meteorologistas de plantão.
Sigo em direção ao Cine Passeio que está na Riachuelo. Logo após o Paço da Liberdade, quase na esquina da Barão de Rio Branco, Riachuelo, Tobias de Macedo e Alfredo Bufren (Sim! É uma esquina de quatro ruas! A Tobias de Macedo vira Alfredo Bufren). Coisas de Curitiba! Ouço o convite:
_ Oi gatão! Vamu lá?
Ah! Essa esquina sempre com movimento das trabalhadoras do sexo! Impossível passar por ela sem notá-las. Sorrio e recuso o convite. Mas uma dúvida me surge: seria o convite da moça uma forma dos deuses me protegerem da tempestade? Buscar um lugar seguro!
Sem resposta clara, espero o sinal de pedestre abrir e sigo em frente. Três quadras à frente, vejo uma moça lavando a calçada em frente ao Mahá. Restaurante que Fernanda, a filha caçula, me apresentou. Do qual me tornei freguês. Lhe pergunto se servirão almoço hoje. A partir do meio-dia é a resposta. 
Ainda faltam 30 minutos. Decido flanar em direção ao Largo da Ordem. Lá, na Casa Romário Martins termino de visitar a exposição sobre Poty Lazaroto. Tinha visto parte dela há algumas semanas. Também em uma manhã de domingo. 
Assistindo um documentário sobre o artista, surge mais um gato na manhã desse domingo. É o Gato Preto de Edgar Allan Poe que Poty ilustrou nos anos 80. Parte das ilustrações são exibidas no documentário enquanto um narrador lê trechos do livro de Poe. Uma lindeza! 
Ao contrário da moça na esquina de quatro ruas no centro de Curitiba. E afinal a tempestade não veio. Me parece que o convite não tinha nada a ver com proteção das divindades. Ou, quem sabe, eram outros os desejos divinos para esse flanador sexagenário? Quem pode responder? Eu não!
Ao voltar ao Mahá, surge essa crônica. Junto com a boa comida e a caipirinha de cataia, a escrita me acalma a alma. Para terminar, o delicioso sorvete de paçoca. Longa vida ao Mahá.


sábado, 6 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 8 - Necesito un bar de carta corta y mesero autoritario

Pode parecer estranho começar uma crônica portuguesa com um título em espanhol. Com os acasos da vida até as coisas estranhas se explicam.  Acredite em mim. Me acompanha que, ao final da crônica, você me entenderá. Mas seja paciente. Não vá direto ao final! O que vem antes do fim também merece a sua leitura. Mas a escolha é sua.

Ontem à noite, fomos assistir a uma apresentação de fado gratuita no Cais das Descobertas e Jardim da Constituição. Parte da programação Noites no Cais, organizada pela Câmara (Prefeitura) Municipal de Lagos. Vimos e ouvimos as fadistas lacobrigenses Marta Alves e Helena Candeias em uma apresentação belíssima de quase duas horas. A primeira vive em Lisboa atualmente, conforme contou ao público. A segunda, a conhecemos duas semanas atrás em apresentação no Café Vadio em uma de suas noites de fado. Vive em Lagos. Ambas maravilhosas.

Enlevado pela música e canto, em determinado momento me vi pensando sobre as escolhas que a vida me trouxe. No começo do ano, graças ao fato de minha companheira ter sido selecionada para uma residência artística em Lagos, decidi acompanhá-la. Articulei um projeto de cooperação com uma universidade portuguesa e vim. Foram 15 dias de férias e 30 de trabalho em uma investigação sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual português. Após cada dia de trabalho, escolhas sobre o que visitar e conhecer por aqui. E nos finais de semana também. É óbvio!

Pois é, em minha vida o destino me trouxe muitos momentos de decisão. Ontem, ouvindo fado, que também significa destino, me ocorreu a ideia de que só se alcançam os fados a partir de nossas escolhas. Fiz muitas em minhas vidas. Algumas em cardápios longos, com muitas opções. Outras em cardápios curtos, quase únicas. Como se um garçom autoritário me dissese:
_ É o que tem pra hoje!
Me sinto feliz em pensar que, na maioria das vezes, foram escolhas próprias. Eram aqueles caminhos pelos quais queria trilhar. Com sucessos. Com fracassos. Porém minhas. E, também, refleti sobre as escolhas que não fiz. Por onde não fui. O que será que desconheci?
E hoje, em um sábado à beira-mar, retomei a leitura do livro - Mujeres que compran flores - que já inspirou uma crônica portuguesa. As personagens principais são cinco mulheres que convivem em um bairro de Madrid. Em suas conversas, volta e meia surgem as escolhas. Feitas. A fazer. Surgem as dúvidas também.
Na passagem de hoje, três delas foram a um bar no final da tarde - Cassandra, Victoria e Marina. A primeira, executiva de sucesso, chamada pelas outras de superwoman, sempre decidida, se dirigiu às outras:
_ Necesito un bar de carta corta y camarero autoritario.
Uma fala surpreendente saindo dos lábios dessa personagem. Sim, às vezes, na vida precisamos de um bar de cardápio curto e um garçom que decida por nós. Porém, na maioria das vezes que os cardápios sejam ricos e os garçons bons ouvintes. No máximo nos expliquem algumas opções desconhecidas.  Ou seja, que corramos os riscos de nossas escolhas. Chegando a nosso fado e desconhecendo os que não escolhemos. Por nossa própria conta e risco.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Crônicas Portuguesas 7 - Sorte ou azar do caralho?

 

Começo essa crônica lembrando de uma frase ouvida de um atendente em uma padaria e pastelaria de Lagos. Lembre-se, pastelaria é confeitaria aqui em Portugal. Havíamos deixado nossas roupas em uma lavanderia, ou lavandaria como dizem aqui, de autosserviço. O ciclo de lavagem duraria pouco mais de trinta minutos. Minha companheira e eu seguimos a sugestão de outra cliente da lavandaria:
_ Ali na frente tem uma pastelaria ótima.
Nossa intenção era tomar um café ou outra bebida gelada. O calor matinal estava já muito forte. Vimos no cardápio uns drinques gelados com frutas tropicais. Pareceu uma boa pedida. Ao escolhermos e pedirmos, o atendente pediu para confirmarmos os números das bebidas no cardápio, só para ter certeza do que pedíramos. Dois ou três minutos depois ele voltou:
_ A máquina quebrou! Azar do caralho!
Além de rir da expressão, só nos restou a opção de tomarmos um sumo de laranja. Espremido na hora. Gelado. Nosso conhecido suco de laranja.
Por vários dias, talvez mais de uma semana, levei comigo a intenção de escrever algo sobre a expressão usada pelo atendente. Mas, faltava a inspiração.
Hoje, depois de um dia de trabalho, tivemos a oportunidade de passar algumas horas na Meia Praia em Lagos. Para nossa sorte, o horário de verão europeu permite dia claro até por volta das nove horas. Assim, entre 16 e 19 horas, ainda é um período agradável à beira-mar.
As praias por aqui tem partes públicas e partes sob  concessão. Nestas é possível alugar cadeiras de praia ou espreguiçadeiras e um guarda-sol, ou tenda, como aqui chamam. Estruturas fixas na areia da praia, com uma cobertura  que lembra um chapéu chinês. Os nossos guarda- sóis aqui são chamados chapéus-de-sol. Pelo menos nessa parte de Portugal.
O aluguel por um dia inteiro, de uma tenda e duas espreguiçadeiras, custa 15 euros. Após as 15 horas, o preço cai para 10 euros. Por duas vezes, no entanto, chegamos à Meia Praia, após as quinze horas e tivemos a sorte de não aparecer ninguém para cobrar. Hoje foi a segunda vez. Sorte do caralho!
Pois é, nossa estadia em terras algarvianas está se aproximando de seu fim. Dia 10 embarcaremos de volta para o Brasil. Porém no dia 8, já retornaremos a Lisboa para os compromissos finais dessa viagem de estudos para mim e de residência criativa para minha companheira.
Pensando bem, foram poucas as vezes que a boa fortuna não nos favoreceu nessa viagem. Além de muita leitura, análises e  reflexão, e alguma produção escrita, inclusive esta série de crônicas, levo comigo dessa viagem, uma admiração grande por esta bela região de Portugal onde ficamos quase 30 dias. Uma sorte do caralho!
Como foi a sorte de ver esse cachorro na janela de sua casa. Estávamos na cobertura da casa onde vivemos as três últimas semanas em Lagos. Minha companheira foi quem o viu pela primeira vez há três dias. Hoje lá estava ele de novo! É ou não é uma sorte do caralho poder levar este registro fotográfico do cachorro namoradeiro da rua Infante de Sagres em Lagos? Será uma memória inesquecível desse curto período em Lagos.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Crônicas portuguesas 6 - Um olhar sobre outro olhar

A fotografia que acompanha esta crônica foi tirada quando andava pela rua Infante de Sagres, no centro de Lagos. Caminhar por ela tem sido uma atividade diária neste período em que vivo nesta bela cidade algarviana. É um dos caminhos que levam ao centro histórico. Repleto de lojas, cafés e restaurantes que atraem aos turistas.
Minhas andanças por Lagos ocorrem ao final da tarde. Depois de fazer minhas leituras, análises e reflexões sobre o projeto de pesquisa que aqui realizo, o horário de verão permite que passeie ainda com a luz solar iluminando o trajeto. Nessa época, anoitece por volta das nove horas. É muito agradável.
Nesse dia, minha companheira e eu tínhamos feito um lanche no Café Gil Eanes que fica na praça de mesmo nome.
Nessa praça, que homenageia um dos navegadores portugueses do século XV, há uma estátua que representa o rei Dom Sebastião. Esta tem um formato que lembra os bonecos da antiga marca Playmobil, com suas partes móveis e articulações bem marcadas. É uma estátua, para dizer o minimo, curiosa.
Com o desaparecimento de Dom Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, no norte da África em 1578, a coroa portuguesa passou para os Filipes da Espanha, visto que ele não tinha descendentes. Sua morte também levou ao surgimento do mito do Sebastianismo, ou seja, a esperança de seu retorno, em uma manhã de nevoeiro, para salvar Portugal de seus problemas (https://ensina.rtp.pt/artigo/d-sebastiao-1554-1578).
Independente da possível volta de Dom Sebastião, que, tenho certeza estranharia muito a estátua que o homenageia, tenho sido cliente constante do Café Gil Eanes. Frequentemente há músicos tocando e cantando na sua frente, ao lado da estátua de Dom Sebastião. O atendimento é cortês e rápido. E os preços não são exagerados. Porém, algo me chamou a atenção no cardápio no primeiro dia: a presença de bitterballen e outros petiscos holandeses que conheci em Utrecht entre 2020 e 2021. Ao perguntar para a garçonete como em Lagos havia um bar servindo produtos holandeses, com um sorriso ela explicou que a mãe veio dos Países Baixos para o Algarve há muitos anos. O Café Gil Eanes está em funcionamento desde 1954. Assim, dia sim, dia não, tomo uma imperial acompanhada de bitterballen. É claro, em outras ocasiões as delícias portuguesas estão sempre presentes no cardápio semanal.
Porém, mais uma vez a escrita me leva por caminhos não intencionados. Na verdade, queria aborda como meu olhar foi atraído por outro olhar, ainda que distante. Um dos meus passatempos é buscar janelas que viram objeto de minhas fotografias. Em minha casa, uma das paredes da sala é quase repleta com elas. Aqui em Lagos, não poderia ser diferente. Constantemente, enquanto caminho, olho para as casas e prédios em busca de novos exemplares para minha coleção. Já tenho algumas feitas aqui em Portugal.
Assim, nesse dia, ao buscar por janelas, encontrei esta em que mais do que a beleza material, enxerguei, talvez, a poesia. Um olhar distante acompanhava o vai-e-vem dos turistas. No que será que a mulher pensava ao nos ver passando pela Infante de Sagres? Não tenho a resposta. Para mim foi suficiente registrar o meu olhar de um outro olhar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 5 - A gaivota, a pipa e uma cicatriz

 


Mais um final de tarde e começo de noite no terraço de nossa nova morada. Parto meio melão em oito pedaços. Tento cortes simétricos, mas não sou bem sucedido. Os pedaços de melão têm a mesma forma, mas tamanhos diferentes. Resultado de leves deslizares da faca sobre a casca. Não importa. O sabor é o que importa. Delicioso.
O vento continua. Desde ontem. Com ele, a sensação térmica cai. Não é o caso de pegar uma blusa. O frio é suportável. Começo a ler o livro adquirido ontem. Mujeres que compran flores. Logo no começo uma fala de Olivia, mexe comigo:
_ Siempre me gustaron las personas con cicatrices, como los árboles. De hecho, desconfío de las personas que pasados los cuarenta no tienen ninguna.
A fala da florista me lembrou de poesia que escrevi para minhas filhas. Tempos atrás. A busco em meu blog:


Das filhas e das dores

Resisto ao desejo: vê-las sem dores.
Ao contrário de Galeano, a Deus não pedi que as dores delas me fossem destinadas.
Mesmo que assim desejasse, não poderia fazê-lo.
Deus não há!
Na vida, já tiveram sua cota.
De dores. Eu também.
Sobrevivemos.
Outras virão. Sobreviveremos.
Neste tempo, entre a luz e a escuridão final, fiz e farei alguns dos curativos de suas feridas.
E elas, dos meus.
As outras dores?
Outros e outras trataram e tratarão.
Algumas, cada um cuidou por conta própria.
Todas parte da vida.
A vida de cada um. Que tem que ser vivida por si mesmo.
Nesse revisitar de minha própria escrita, cortei o verso final. Era desnecessário.
As cicatrizes surgem das dores. Sem dores, não seríamos confiáveis para Olívia. Minhas filhas se aproximam dos quarenta. Já têm suas cicatrizes. São confiáveis.
Ao pousar um pouco o livro, ouvi um barulho. Como se fosse um bater de folhas plásticas. Ou de papel. Ao mesmo tempo, ouvi o grasnar de uma gaivota. Ao olhar em direção às fontes do som, vejo a gaivota no topo do telhado ao lado. Ainda está lá enquanto escrevo. Um pouco mais distante, uma pipa voa alto e oscila com o vento forte. Dela vinha o canto. Que me pareceu o vibrar de folhas ao vento.
A gaivota e a pipa. Uma voa, apesar do vento. Tem vida própria. A outra voa com o vento. Depende do engenho humano. Me lembro de que nunca fui muito habilidoso no fazer de pipas na adolescência. Assim como não consegui a simetria com os pedaços de melão, não o conseguia no corte da pipa. As memórias, às vezes, são como cicatrizes. Marcas que se acumulam em você. Esta cicatriz é bem pequena. Não doeu muito. Há outras maiores. Mas quem não as tem?
Segundo Olivia, a florista, os que não são confiáveis. Ainda bem que tenho a minha cota. Pode confiar!

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 4 - Sardinhas à discrição

Quase 19 horas, e o dia ainda está bem claro. No horário de verão em Lagos, o sol tem se posto após as nove horas da noite. Depois de um dia de trabalho, caminhamos um pouco pelo centro histórico de Lagos. Em uma livraria, ao me ver folheando livros usados, a proprietária me informa sobre a feira de livros usados que se iniciou ontem no antigo Armazém Regimental.
Ampliamos um pouco nossa caminhada em direção ao local. Lá chegando, na multiplicidade de oferta, entre clássicos da literatura, contistas de Lagos e livros em espanhol, me decido por um de Vanessa Montfort, nascida em Barcelona em 1975.
O título - Mujeres que Compran Flores - e a contemporaneidade da escritora foram decisivas na minha escolha. Quem sabe outro dia volte para adquirir a coletânea de contos lacobrigenses, isto é, de Lagos.
Aliás, na primeira casa em que nos hospedamos havia uma pequena biblioteca em que encontrei um livro de outra autora, Antonia Fraser. Escritora britânica, de geração muito mais anterior a Vanessa Montfort. Nascida em 1932, é autora de biografias e romances policiais. O livro que encontrei foi A Splash of Red, em que Jemima Shore, jornalista de televisão que já foi personagem de alguns romances de Antonia Fraser elucida o assassinato de sua amiga Chloé, também escritora. Há tempos tenho privilegiado a leitura de livros escrito por mulheres.
Nossa segunda moradia em Lagos não tem nenhum livro à disposição dos hóspedes. Porém oferece uma sacada em seu topo de onde se pode ver, à distância, a Meia Praia de Lagos. Há pouco, antes de iniciar essa crônica, pude ver a ponta de um veleiro passando por trás dos demais prédios que ficam no caminho de minha visão da Marina de Lagos. Acompanhei a lenta passagem do veleiro oculto no horizonte, navegando pela ribeira em direção oposta ao mar. A visão me fez lembrar do almoço de hoje em que comemos sardinhas assadas ao carvão. Abandonei o livro de Vanessa que trouxera à sacada para começar a leitura. Me pus a escrever essa crônica quase em formato de registro de um diário.
Pouco depois do meio-dia nos dirigimos ao Escondidinho, restaurante próximo ao Laboratório de Actividades Criativas (LAC) de Lagos, onde minha companheira faz uma residência artística. É nesse espaço que trabalho em meu projeto de pesquisa sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual em Portugal. Me permitiram usar a mesma cela da residência criativa sem nenhum custo. Digo cela, pois o LAC é sediado em uma antiga cadeia. As celas foram transformadas em estúdios para os artistas que recebem.
Foi a segunda vez que fomos a este restaurante. Indicação de um dos funcionários do LAC. Da primeira vez, não comemos sardinhas pois nos pareceu caro. No entanto, ao pagar a conta, indaguei sobre a quantidade de sardinha que era servida. A resposta foi: sardinhas à discrição. Pela minha cara de dúvida, a sobrinha da proprietária, que estava ao caixa, esclareceu: comes o quanto quiseres ou puderes. 
Assim, hoje voltamos ao Escondidinho para comer sardinha à discrição. Chegamos um pouco cedo e fomos avisado que devíamos esperar. A proprietária parecia um pouco nervosa, talvez ríspida. Às vezes, o modo de falar dos locais me soa agressivo. Esperamos. Sentamos. Fizemos o pedido. Comemos as sardinhas à nossa discrição.
Contudo, apesar de ter comido bem, não poderia deixar de pedir uma sobremesa.
Logo que entramos, observei que um rapaz entrou no Escondidinho com uma embalagem redonda. Dirigiu-se ao balcão de doces ao lado de nossa mesa e abriu o pacote. Nele havia uma torta que me atraiu o olhar e despertou o desejo de doce.
Aproveitei que a proprietária se aproximou de nossa mesa e perguntei do que era a torta. Torta Algarviana foi a resposta. Com amêndoas foi o complemento da resposta. Ambas no mesmo estilo seco de falar do começo do almoço. Pedi um pedaço para conhecer. Seria muito difícil que aquela torta tão bonita e com amêndoas não fosse boa!
Mas, por trás de qualquer alma, em algum momento, a ternura se revela. Quando fui pagar a conta, uma pergunta suave da senhora: estava bom o doce?
Respondi afirmativamente e aproveitei para perguntar o nome da proprietária. Nos despedimos. E cá estou a terminar essa crônica com um pensamento: será a dona do Escondidinho também uma mulher que compra flores?

domingo, 10 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 3 - Sonho de imigrante

Logo nos primeiros dias de nossa estadia em Portugal, ainda em Almada, saí flanando pela ruas da vizinhança, Cova da Piedade.
Em minhas andanças, geralmente, muitas coisas chamam a minha atenção. Dessa vez, houve uma casa com portas e janelas muito bem pintadas cuja beleza me atraiu. Depois,  uma palavra que reconheci e, ao mesmo tempo estranhei. Foi o caso de "talho" que vi em uma fachada de casa de comércio. O estranhamento inicial foi substituído pelo reconhecimento seguido de uma interjeição: Ah! É o que no Brasil chamamos açougue.
Costumam chamar a minha atenção também, os anúncios nas placas em frente às lojas. Nesse dia, em uma padaria, li o anúncio: o melhor pastel de nata de Portugal. Para alguém que adora doces como eu, o anúncio foi um convite irresistível! Apesar de meus exames recentes de glicose sugerirem moderação, cedi à tentação. Entrei e pedi um café e um pastel de natas. Este era um pouco maior do que os que já havia comido aqui em Portugal. Mistura ideal de uma casca crocante e um creme de natas de lambuzar os dedos e os beiços. Não posso confirmar que merece o título de melhor de Portugal. Ainda tenho muitos a experimentar nesse país! Porém este estava delicioso.
E foi nesse flanar que em um muro, um cartazete manuscrito recebeu o meu olhar.
Nele estava escrito:
"Rapaz sério carinhoso trabalhador com vida estável pretende conhecer rapariga séria com boa apresentação idade entre 21 a 40 a. Para simples amizade ou futuro compromisso."
O seu teor esperançoso mexeu comigo. Um misto de surpresa e ternura, ao ver anúncio tão simples. Terá sido o rapaz bem sucedido?
Nestes tempos em que a legislação sobre imigração em Portugal está em debate, criando sérias restrições à entrada de estrangeiros por aqui, encontrei um apelo quase ingênuo de um rapaz, que supus imigrante. Nele, vi a esperança de uma vida melhor em outras terras de alguém que por alguma razão desconhecida, porém imaginável, não pode ser feliz em sua pátria.
Há dois dias, a imprensa local anunciou que o decreto do parlamento português sobre imigração teve pontos considerados inconstitucionais e foi vetado pelo presidente. No entanto, há a intenção do governo atual a voltar à carga.
Nesse interím, as imigrações continuam. E mais jovens esperançosos podem vir a esta terra hospitaleira em busca de uma simples amizade ou futuro compromisso. Longa vida à esperança, que é sempre a última que .morre.

sábado, 2 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 2 - Descobertas e reencontros

 Há cinco dias em Portugal, já tive momentos de descobertas e de reencontros. Outro dia, no meio da tarde, parti em busca de uma sorveteria nas proximidades de onde estamos. Pelo Googlemaps, me informei da existência da Gelados Monte Neve, cerca de um quilômetro de distância. Uma sorveteria pequena, com um leque não muito diversificado de opções.

Apostei no conhecido pistache e mesclei com o desconhecido mirtilo. Boa mistura. Sentei-me junto a uma das duas mesinhas externas. Logo depois, o dono, que me servira o sorvete, veio checar se a mesa e a cadeira estavam limpas. Manutenção nas ruas próximas estavam empoeirando tudo. Mas a minha cadeira, assim como a mesinha, me pareceram limpas.
Aproveitei para lhe perguntar se o gelado era de fabricação própria. Confirmou e complementou:
_ É minha mulher que faz. Ainda.
Ela estava dentro a conversar com outra senhora. Pelos cabelos grisalhos de ambos, e pelo "ainda" de sua resposta, deduzi que devem estar nesse comércio há muitos anos. Lembrei-me de histórias que minha mãe contava após o casamento com meu pai. Começo dos anos 50. Ela passou a fazer os sorvetes do Bar e Sorveteria do Gimenez, na esquina da rua Paranaguá com a Goiás. Em minha mente, juntaram-se as duas pequenas empresas. Uma fusão de descoberta e reencontro. A descoberta da Gelados Monte Neve me fez reencontrar memórias que me contaram sobe o bar e sorveteria de meus pais.
Findo o sorvete, decido flanar por esta parte de Almada. Placas indicavam o centro histórico. Caminhei em sua direção. Depois de quinze minutos, vejo um prédio, com um letreiro ao meio da fachada frontal - Incrível Almadense. E, pouco acima das três portas amplas, outro letreiro menor: Cine Incrivel. Meu flanar pelo centro de Almada me trouxe à frente daquela que foi a primeira sala de cinema da cidade. Aprendi sobre isso em um documento da Câmara Municipal de Almada que encontrei na Internet.
Ah, as coincidências da vida! Em 1999, após participar de um congresso em Nápoles, sozinho, fui até Foggia passear por uma região da Itália que não conhecia. Sem destino, na manhã do segundo dia, peguei um ônibus para a região litorânea. Desci em Manfredônia, e me dirigi à praia. Um pouco antes de chegar a ela, vi as ruínas do Cinema Impero, que foi o primeiro cinema de Manfredonia. Tirei uma fotografia que até hoje ilustra as edições da Revista Livre de Cinema. Coloco nesta crônica as fotografias dos dois cinemas que o acaso colocou nos meus caminhos separados por pouco mais de 25 anos. Mais uma vez, uma descoberta no presente me leva a um reencontro com o passado.
E, para fechar essa crônica, dois reencontros gastronômicos que surgiram de descobertas. Há dois dias, jantamos em um pequeno restaurante em Cacilhas. Depois de comermos um espeto de tamboril com camarão, resolvi pedir uma sobremesa. No cardápio, entre as opções, vi um doce de nome desconhecido para mim: farófias.  Busquei, mais uma vez, na Internet. Descobri que é a mesma coisa que na minha infância eu adorava. Sobremesa que chamávamos espumas flutuantes. E, no dia seguinte, em Lisboa, na Pastéis de Belém, vi no cardápio uma bebida com o nome groselha. Perguntei ao garçom se era o xarope de groselha. Ele confirmou informando que era servido com gelo e água, com ou sem gás. Nunca havia tomado groselha misturada a água com gás. Foi o que pedi. Muito bom! Descobertas e reencontros na minha viagem por Portugal.
Por fim, no meio da tarde, após o almoço em casa, decidi vir ao Quiosquices, um quiosque no centro do Largo 5 de Outubro em Almada. A dois minutos de onde estamos hospedados. Vim com a ideia de pedir uma groselha com gelo e água com gás. A atendente ficou surpresa. Não servem assim a groselha desse lado do Rio Tejo. Ela deu duas opções: a groselha com pedras de gelo ou o tango. Perguntei o que era. Ela brincou é uma dança! Mas é também um imperial com groselha. Lembra do imperial da primeira crônica portuguesa? Pois é, ele de novo. Uma descoberta recente.
Pedi o tango, sentei-me à sombra em uma das mesas do Quiosquices, e me pus a escrever esta crônica. Logo mais vou dançar outro tango!