Ampliamos um pouco nossa caminhada em direção ao local. Lá chegando, na multiplicidade de oferta, entre clássicos da literatura, contistas de Lagos e livros em espanhol, me decido por um de Vanessa Montfort, nascida em Barcelona em 1975.
O título - Mujeres que Compran Flores - e a contemporaneidade da escritora foram decisivas na minha escolha. Quem sabe outro dia volte para adquirir a coletânea de contos lacobrigenses, isto é, de Lagos.
Aliás, na primeira casa em que nos hospedamos havia uma pequena biblioteca em que encontrei um livro de outra autora, Antonia Fraser. Escritora britânica, de geração muito mais anterior a Vanessa Montfort. Nascida em 1932, é autora de biografias e romances policiais. O livro que encontrei foi A Splash of Red, em que Jemima Shore, jornalista de televisão que já foi personagem de alguns romances de Antonia Fraser elucida o assassinato de sua amiga Chloé, também escritora. Há tempos tenho privilegiado a leitura de livros escrito por mulheres.
Nossa segunda moradia em Lagos não tem nenhum livro à disposição dos hóspedes. Porém oferece uma sacada em seu topo de onde se pode ver, à distância, a Meia Praia de Lagos. Há pouco, antes de iniciar essa crônica, pude ver a ponta de um veleiro passando por trás dos demais prédios que ficam no caminho de minha visão da Marina de Lagos. Acompanhei a lenta passagem do veleiro oculto no horizonte, navegando pela ribeira em direção oposta ao mar. A visão me fez lembrar do almoço de hoje em que comemos sardinhas assadas ao carvão. Abandonei o livro de Vanessa que trouxera à sacada para começar a leitura. Me pus a escrever essa crônica quase em formato de registro de um diário.
Pouco depois do meio-dia nos dirigimos ao Escondidinho, restaurante próximo ao Laboratório de Actividades Criativas (LAC) de Lagos, onde minha companheira faz uma residência artística. É nesse espaço que trabalho em meu projeto de pesquisa sobre o ecossistema empreendedor cultural do audiovisual em Portugal. Me permitiram usar a mesma cela da residência criativa sem nenhum custo. Digo cela, pois o LAC é sediado em uma antiga cadeia. As celas foram transformadas em estúdios para os artistas que recebem.
Foi a segunda vez que fomos a este restaurante. Indicação de um dos funcionários do LAC. Da primeira vez, não comemos sardinhas pois nos pareceu caro. No entanto, ao pagar a conta, indaguei sobre a quantidade de sardinha que era servida. A resposta foi: sardinhas à discrição. Pela minha cara de dúvida, a sobrinha da proprietária, que estava ao caixa, esclareceu: comes o quanto quiseres ou puderes.
Assim, hoje voltamos ao Escondidinho para comer sardinha à discrição. Chegamos um pouco cedo e fomos avisado que devíamos esperar. A proprietária parecia um pouco nervosa, talvez ríspida. Às vezes, o modo de falar dos locais me soa agressivo. Esperamos. Sentamos. Fizemos o pedido. Comemos as sardinhas à nossa discrição.
Contudo, apesar de ter comido bem, não poderia deixar de pedir uma sobremesa.
Logo que entramos, observei que um rapaz entrou no Escondidinho com uma embalagem redonda. Dirigiu-se ao balcão de doces ao lado de nossa mesa e abriu o pacote. Nele havia uma torta que me atraiu o olhar e despertou o desejo de doce.
Aproveitei que a proprietária se aproximou de nossa mesa e perguntei do que era a torta. Torta Algarviana foi a resposta. Com amêndoas foi o complemento da resposta. Ambas no mesmo estilo seco de falar do começo do almoço. Pedi um pedaço para conhecer. Seria muito difícil que aquela torta tão bonita e com amêndoas não fosse boa!
Mas, por trás de qualquer alma, em algum momento, a ternura se revela. Quando fui pagar a conta, uma pergunta suave da senhora: estava bom o doce?
Respondi afirmativamente e aproveitei para perguntar o nome da proprietária. Nos despedimos. E cá estou a terminar essa crônica com um pensamento: será a dona do Escondidinho também uma mulher que compra flores?


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