sábado, 2 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 2 - Descobertas e reencontros

 Há cinco dias em Portugal, já tive momentos de descobertas e de reencontros. Outro dia, no meio da tarde, parti em busca de uma sorveteria nas proximidades de onde estamos. Pelo Googlemaps, me informei da existência da Gelados Monte Neve, cerca de um quilômetro de distância. Uma sorveteria pequena, com um leque não muito diversificado de opções.

Apostei no conhecido pistache e mesclei com o desconhecido mirtilo. Boa mistura. Sentei-me junto a uma das duas mesinhas externas. Logo depois, o dono, que me servira o sorvete, veio checar se a mesa e a cadeira estavam limpas. Manutenção nas ruas próximas estavam empoeirando tudo. Mas a minha cadeira, assim como a mesinha, me pareceram limpas.
Aproveitei para lhe perguntar se o gelado era de fabricação própria. Confirmou e complementou:
_ É minha mulher que faz. Ainda.
Ela estava dentro a conversar com outra senhora. Pelos cabelos grisalhos de ambos, e pelo "ainda" de sua resposta, deduzi que devem estar nesse comércio há muitos anos. Lembrei-me de histórias que minha mãe contava após o casamento com meu pai. Começo dos anos 50. Ela passou a fazer os sorvetes do Bar e Sorveteria do Gimenez, na esquina da rua Paranaguá com a Goiás. Em minha mente, juntaram-se as duas pequenas empresas. Uma fusão de descoberta e reencontro. A descoberta da Gelados Monte Neve me fez reencontrar memórias que me contaram sobe o bar e sorveteria de meus pais.
Findo o sorvete, decido flanar por esta parte de Almada. Placas indicavam o centro histórico. Caminhei em sua direção. Depois de quinze minutos, vejo um prédio, com um letreiro ao meio da fachada frontal - Incrível Almadense. E, pouco acima das três portas amplas, outro letreiro menor: Cine Incrivel. Meu flanar pelo centro de Almada me trouxe à frente daquela que foi a primeira sala de cinema da cidade. Aprendi sobre isso em um documento da Câmara Municipal de Almada que encontrei na Internet.
Ah, as coincidências da vida! Em 1999, após participar de um congresso em Nápoles, sozinho, fui até Foggia passear por uma região da Itália que não conhecia. Sem destino, na manhã do segundo dia, peguei um ônibus para a região litorânea. Desci em Manfredônia, e me dirigi à praia. Um pouco antes de chegar a ela, vi as ruínas do Cinema Impero, que foi o primeiro cinema de Manfredonia. Tirei uma fotografia que até hoje ilustra as edições da Revista Livre de Cinema. Coloco nesta crônica as fotografias dos dois cinemas que o acaso colocou nos meus caminhos separados por pouco mais de 25 anos. Mais uma vez, uma descoberta no presente me leva a um reencontro com o passado.
E, para fechar essa crônica, dois reencontros gastronômicos que surgiram de descobertas. Há dois dias, jantamos em um pequeno restaurante em Cacilhas. Depois de comermos um espeto de tamboril com camarão, resolvi pedir uma sobremesa. No cardápio, entre as opções, vi um doce de nome desconhecido para mim: farófias.  Busquei, mais uma vez, na Internet. Descobri que é a mesma coisa que na minha infância eu adorava. Sobremesa que chamávamos espumas flutuantes. E, no dia seguinte, em Lisboa, na Pastéis de Belém, vi no cardápio uma bebida com o nome groselha. Perguntei ao garçom se era o xarope de groselha. Ele confirmou informando que era servido com gelo e água, com ou sem gás. Nunca havia tomado groselha misturada a água com gás. Foi o que pedi. Muito bom! Descobertas e reencontros na minha viagem por Portugal.
Por fim, no meio da tarde, após o almoço em casa, decidi vir ao Quiosquices, um quiosque no centro do Largo 5 de Outubro em Almada. A dois minutos de onde estamos hospedados. Vim com a ideia de pedir uma groselha com gelo e água com gás. A atendente ficou surpresa. Não servem assim a groselha desse lado do Rio Tejo. Ela deu duas opções: a groselha com pedras de gelo ou o tango. Perguntei o que era. Ela brincou é uma dança! Mas é também um imperial com groselha. Lembra do imperial da primeira crônica portuguesa? Pois é, ele de novo. Uma descoberta recente.
Pedi o tango, sentei-me à sombra em uma das mesas do Quiosquices, e me pus a escrever esta crônica. Logo mais vou dançar outro tango!

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