A fotografia que acompanha esta crônica foi tirada quando andava pela rua Infante de Sagres, no centro de Lagos. Caminhar por ela tem sido uma atividade diária neste período em que vivo nesta bela cidade algarviana. É um dos caminhos que levam ao centro histórico. Repleto de lojas, cafés e restaurantes que atraem aos turistas.
Minhas andanças por Lagos ocorrem ao final da tarde. Depois de fazer minhas leituras, análises e reflexões sobre o projeto de pesquisa que aqui realizo, o horário de verão permite que passeie ainda com a luz solar iluminando o trajeto. Nessa época, anoitece por volta das nove horas. É muito agradável.
Nesse dia, minha companheira e eu tínhamos feito um lanche no Café Gil Eanes que fica na praça de mesmo nome.
Nessa praça, que homenageia um dos navegadores portugueses do século XV, há uma estátua que representa o rei Dom Sebastião. Esta tem um formato que lembra os bonecos da antiga marca Playmobil, com suas partes móveis e articulações bem marcadas. É uma estátua, para dizer o minimo, curiosa.
Com o desaparecimento de Dom Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, no norte da África em 1578, a coroa portuguesa passou para os Filipes da Espanha, visto que ele não tinha descendentes. Sua morte também levou ao surgimento do mito do Sebastianismo, ou seja, a esperança de seu retorno, em uma manhã de nevoeiro, para salvar Portugal de seus problemas (https://ensina.rtp.pt/artigo/d-sebastiao-1554-1578).
Independente da possível volta de Dom Sebastião, que, tenho certeza estranharia muito a estátua que o homenageia, tenho sido cliente constante do Café Gil Eanes. Frequentemente há músicos tocando e cantando na sua frente, ao lado da estátua de Dom Sebastião. O atendimento é cortês e rápido. E os preços não são exagerados. Porém, algo me chamou a atenção no cardápio no primeiro dia: a presença de bitterballen e outros petiscos holandeses que conheci em Utrecht entre 2020 e 2021. Ao perguntar para a garçonete como em Lagos havia um bar servindo produtos holandeses, com um sorriso ela explicou que a mãe veio dos Países Baixos para o Algarve há muitos anos. O Café Gil Eanes está em funcionamento desde 1954. Assim, dia sim, dia não, tomo uma imperial acompanhada de bitterballen. É claro, em outras ocasiões as delícias portuguesas estão sempre presentes no cardápio semanal.
Porém, mais uma vez a escrita me leva por caminhos não intencionados. Na verdade, queria aborda como meu olhar foi atraído por outro olhar, ainda que distante. Um dos meus passatempos é buscar janelas que viram objeto de minhas fotografias. Em minha casa, uma das paredes da sala é quase repleta com elas. Aqui em Lagos, não poderia ser diferente. Constantemente, enquanto caminho, olho para as casas e prédios em busca de novos exemplares para minha coleção. Já tenho algumas feitas aqui em Portugal.
Assim, nesse dia, ao buscar por janelas, encontrei esta em que mais do que a beleza material, enxerguei, talvez, a poesia. Um olhar distante acompanhava o vai-e-vem dos turistas. No que será que a mulher pensava ao nos ver passando pela Infante de Sagres? Não tenho a resposta. Para mim foi suficiente registrar o meu olhar de um outro olhar.
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