quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Crônicas Portuguesas 5 - A gaivota, a pipa e uma cicatriz

 


Mais um final de tarde e começo de noite no terraço de nossa nova morada. Parto meio melão em oito pedaços. Tento cortes simétricos, mas não sou bem sucedido. Os pedaços de melão têm a mesma forma, mas tamanhos diferentes. Resultado de leves deslizares da faca sobre a casca. Não importa. O sabor é o que importa. Delicioso.
O vento continua. Desde ontem. Com ele, a sensação térmica cai. Não é o caso de pegar uma blusa. O frio é suportável. Começo a ler o livro adquirido ontem. Mujeres que compran flores. Logo no começo uma fala de Olivia, mexe comigo:
_ Siempre me gustaron las personas con cicatrices, como los árboles. De hecho, desconfío de las personas que pasados los cuarenta no tienen ninguna.
A fala da florista me lembrou de poesia que escrevi para minhas filhas. Tempos atrás. A busco em meu blog:


Das filhas e das dores

Resisto ao desejo: vê-las sem dores.
Ao contrário de Galeano, a Deus não pedi que as dores delas me fossem destinadas.
Mesmo que assim desejasse, não poderia fazê-lo.
Deus não há!
Na vida, já tiveram sua cota.
De dores. Eu também.
Sobrevivemos.
Outras virão. Sobreviveremos.
Neste tempo, entre a luz e a escuridão final, fiz e farei alguns dos curativos de suas feridas.
E elas, dos meus.
As outras dores?
Outros e outras trataram e tratarão.
Algumas, cada um cuidou por conta própria.
Todas parte da vida.
A vida de cada um. Que tem que ser vivida por si mesmo.
Nesse revisitar de minha própria escrita, cortei o verso final. Era desnecessário.
As cicatrizes surgem das dores. Sem dores, não seríamos confiáveis para Olívia. Minhas filhas se aproximam dos quarenta. Já têm suas cicatrizes. São confiáveis.
Ao pousar um pouco o livro, ouvi um barulho. Como se fosse um bater de folhas plásticas. Ou de papel. Ao mesmo tempo, ouvi o grasnar de uma gaivota. Ao olhar em direção às fontes do som, vejo a gaivota no topo do telhado ao lado. Ainda está lá enquanto escrevo. Um pouco mais distante, uma pipa voa alto e oscila com o vento forte. Dela vinha o canto. Que me pareceu o vibrar de folhas ao vento.
A gaivota e a pipa. Uma voa, apesar do vento. Tem vida própria. A outra voa com o vento. Depende do engenho humano. Me lembro de que nunca fui muito habilidoso no fazer de pipas na adolescência. Assim como não consegui a simetria com os pedaços de melão, não o conseguia no corte da pipa. As memórias, às vezes, são como cicatrizes. Marcas que se acumulam em você. Esta cicatriz é bem pequena. Não doeu muito. Há outras maiores. Mas quem não as tem?
Segundo Olivia, a florista, os que não são confiáveis. Ainda bem que tenho a minha cota. Pode confiar!

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