No dia seguinte, Daniel e Dayane, que atuam junto com Cândido no Laboratório de Pesquisa em Empreendedorismo e Inovação da Universidade Federal de Goiás, me levaram para conhecer a cidade de Goiás, primeira capital do estado.
O convite veio em função de minha conhecida cinefilia, pois no dia anterior havia se iniciado mais uma edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental da cidade de Goiás. Porém, embora tenhamos conseguido assistir duas sessões do festival nesse dia, minha visita à antiga Villa Boa de Goyaz me traria surpresas agradáveis além do mundo do cinema.
E, ainda teve mais. Na loja ao lado, vejo uma exposição de livros, mas não era uma livraria. Na verdade, já havia passado pela livraria Leodegaria, que homenageia a primeira mulher a publicar um livro de poesias no estado de Goiás em 1906, Leodegaria de Jesus.
Eram vários exemplares de três livros. Um deles, pela capa e título, atraiu minha atenção: Histórias do mercado e outras lembranças de Tõe do Galo. Folheei o livro, perguntei o preço e comprei.
Indaguei sobre o autor, e a mulher que me atendia disse que ele tinha estado por ali, mas havia saído. E completou: mas logo volta. Nesse momento, chegou o filho do Tõe do Galo. Se prontificou a ir buscar o pai. Eu disse que não precisava. Iria almoçar e depois passaria por ali de novo.
Depois do almoço, voltei à loja e lá estava o autor do livro. Nesse momento me dei conta de que ele é o proprietário da loja, junto com a mulher e o filho. Me dirigi a ele e disse que queria um autógrafo. Ele me respondeu:
_ Ah, eu não dou conta.
_ Só o seu nome, eu insisti.
_ Faço o ce de Camargo. Serve?
Só então me dei conta de que o Tõe não escreve. Ele é um contador de histórias. E, bem no seu jeito, me perguntou:
_ Tem tempo de ver uma fotografia?
_ Claro que sim.
Ele foi para dentro e voltou com uma fotografia da Praça do Coreto da cidade de Goiás. E me mostrando a calçada lateral da praça, me contou uma das suas histórias:
_ Antes dessa calçada, este lado da praça era dividido em duas partes por uma cerca de arame farpado. As mulheres caminhavam de um lado. E, os homens, do outro lado na direção oposta. Ninguém podia se tocar.
_ E depois? O que acontecia? Lhe perguntei.
_ Depois a gente ia pro Beco do Grudi. Aí a gente se pegava!
Tõe do Galo e eu, Goiás, 13/07/2025
A essa altura, você deve estar se perguntando sobre o título dessa crônica - Gente estranha em Goiás - não é? Em uma das histórias narradas no livro do Tõe do Galo, ele conta sobre os tempos de criança em que ia pegar frutas no jardim da casa de Cora Coralina. E, no meio dessa história, ele conta que naquela época não se chamava os visitantes de turista, mas de "gente estranha na cidade".
Feliz fui eu de passar algumas horas como gente estranha na cidade de Goiás e conhecer Tõe do Galo, bolo de arroz e a livraria Leodegaria. Se puder, vá também ser gente estranha por lá. Tenho certeza de que a hospitalidade vila-boense vai te surpreender. E não se esqueça de comprar o livro do Tõe do Galo. Além de saber como os vila-boenses se referiam a turistas antigamente em Goiás, você vai conhecer muita gente que não está nos livros de história. Gente como a Dona Arinda que pegava água no rio em latas e vendia. E, nesse comércio, levava os recados de uma cliente para outra, o leve-e-traz ou fuxico, sem maldade, como nos lembra o Tõe do Galo.

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