domingo, 28 de julho de 2024

Quanto vale essa vida?

Acordei cedo ontem para ir a um laboratório coletar amostra de sangue para uns exames. Nessa época, geralmente, faço a ronda dos médicos para o acompanhamento anual da saúde. Por enquanto tudo bem com os exames. Dessa vez, os exames foram solicitados pelo urologista. Acompanhamento periódico do índice de PSA e dos eventuais cálculos. Não matemáticos. As famosas pedras nos rins que são presenças frequentes em minha vida desde os 20 anos. Sou uma pedreira!
Um pouco preguiçoso, ao invés de caminhar, escolhi ir de ônibus. Pouco mais de 1.500 metros, porém com o céu um pouco nublado, preferi não correr o risco de ser surpreendido por chuva no caminho.Quase em frente à delegacia de furtos e roubos, lá estava eu no ponto de ônibus.
Um aplicativo me informou que o ônibus deveria chegar à minha parada, por volta das sete e dez. Cerca de 15 minutos de espera. Cheguei a pensar em caminhar. A estimativa do mesmo aplicativo me dizia 20 minutos de caminhada. No entanto, sem pressa de sentir a agulha na veia, e com a preguiça mais intensa, fiquei aguardando o ônibus.
Poucos minutos depois, um homem se junta à espera pelo coletivo. Logo depois que chegou, me perguntou se poderia usar meu cartão para pagar a passagem dele. Ele me faria um pix com o valor. Na maioria dos ônibus em Curitiba, já não se pode pagar a passagem com dinheiro. Apenas nas estações tubo, o chamado vil metal é aceito. Lamentei não poder ajudá-lo. Desde os 65 anos, sou isento da tarifa de transporte coletivo na capital paranaense. No entanto, só posso usar o cartão uma vez no mesmo ônibus. Para usar por uma segunda vez, é necessário esperar por 15 minutos.
Não demorou muito, chegou outro companheiro de espera pelo ônibus. Já se conheciam. Quase que de forma automática, o recém chegado falou. Passa só cinco reais. Outro dia você passou 1 real a mais. Depois de alguns segundos, esse confirmou. Já recebi irmão. Tranquilo.
Pela conversa dos dois, deduzi que eram dois porteiros de prédios na vizinhança. Falaram da tranquilidade do turno noturno de trabalho. Um pouco depois, o primeiro comentou sobre um convite para fazer uns bicos como segurança de transportadora. Cem reais o turno de trabalho de oito horas. Achou pouco para arriscar a vida em um trabalho que não teria nem arma nem colete à prova de balas. O outro concordou. Se fosse pelo menos 300 reais, o primeiro comentou. Pois é, disse o segundo, o foda é que tem caras que aceitam! Nesse momento, me ocorreu uma dúvida. Quase filosófica. Quanto vale uma vida no mercado? Depende do aperto de cada um? Não sei responder.
Logo depois chegou um terceiro homem. Também conhecido dos outros dois. Com ar de cansado. Os dois primeiros comentaram sobre o ar cansado do último a chegar. Este brincou. Noite agitada no prédio! Falta de respeito com gente de idade. Não consegui dormir nada no serviço esta noite! Eles riram. Eu também.
O ônibus chegou. Me fizeram a gentileza de permitir que entrasse primeiro. Respeito com os mais velhos! Um deles passou o cartão duas vezes na catraca. Tudo correu bem.
Logo na parada seguinte, em frente a um hospital, um grande número de passageiros entrou no ônibus. Moças e moços com alguma peça da vestimenta branca. Trabalhadoras e trabalhadores da saúde deixando o turno da noite. Ruidosos e felizes. Talvez por estarem  indo para casa após um plantão noturno. Mais uma noite de trabalho vencida. Também com algum risco de vida. Um descuido e, pronto, alguma doença infecciosa pode ser adquirida. Muitas e muitos perderam a vida nos tempos pandêmicos não muito distantes. A mesma pergunta volta à minha mente. Quanto vale uma vida?
Além dessa dúvida comum na vida dessas trabalhadoras e trabalhadores, outra semelhança entres esses homens e mulheres me surge na mente. Apesar do cansaço de uma noite de trabalho, o bom humor se preserva entre todos. Enfim, a hora de ir pra casa. Encontrar os que lhe esperam em suas casas. Que lhe darão algum conforto, alguma alegria e, talvez, algum prazer. Antes do sono diurno que lhes reporá as energias para o próximo turno de trabalho. E segue a rotina da vida. Quanto vale essa vida? Não sei responder! Você pode?

Nenhum comentário:

Postar um comentário